Me sinto sozinha mesmo acompanhada: por que isso acontece
Me sinto sozinha mesmo acompanhada: por que isso acontece? Veja a solidão no meio da família, dos amigos e do trabalho, e por que a qualidade do vínculo pesa.
Você se sente sozinha mesmo acompanhada porque solidão não é falta de gente por perto. É falta de conexão. Dá pra estar numa mesa cheia, num grupo de amigas, num casamento de muitos anos, e sentir que ninguém ali sabe de verdade o que se passa com você. Quando a presença das pessoas não vem junto com se sentir vista, a solidão aparece mesmo no meio de todo mundo.
Esse é um dos tipos de solidão mais confusos, porque ele não bate com a imagem que a gente tem de "pessoa sozinha". Por fora, está tudo certo. Por dentro, tem um vazio que você nem sabe explicar direito. E muitas vezes vem junto uma culpa: "como eu posso me sentir assim, se eu tenho tanta gente?".
Por que eu me sinto sozinha mesmo acompanhada
Porque o que alimenta a gente não é a quantidade de pessoas, é a qualidade do encontro. Algumas perguntas ajudam a enxergar isso:
- Com quem você consegue ser você mesma, sem editar nada?
- Quem sabe como você está de verdade, e não só o que você faz?
- Quem pergunta de volta, quando você pergunta?
- Com quem você pode ficar triste sem precisar se explicar?
Às vezes a gente olha pra essas perguntas e percebe que está cercada de gente, mas que quase todas as relações ficam num nível de superfície. A convivência existe, o afeto existe, mas falta intimidade. E intimidade é justamente o que faz a gente se sentir acompanhada.
Sozinha no meio da família
A família é um lugar onde a solidão acompanhada aparece bastante. Você está lá no almoço de domingo, participa, ajuda, conversa. Mas as conversas giram em torno das mesmas coisas, alguns assuntos não podem ser tocados, e o seu lado de dentro nunca entra na roda.
Tem famílias onde o afeto é mostrado com comida, com cuidado prático, com presença, mas não com palavras. Tem famílias onde você ocupa um papel fixo, a forte, a que resolve, a que não dá trabalho, e esse papel não deixa espaço pra você precisar de alguém. E tem famílias onde já houve feridas que nunca foram conversadas, e a distância ficou morando ali no meio.
Em todos esses casos, estar junto não é o mesmo que estar perto.
Sozinha no relacionamento
Dentro de um relacionamento, a solidão costuma doer de um jeito especial, porque a gente espera que ali seja o lugar onde ela não entra. Mas ela entra quando a conversa vira só logística, quando você sente que fala e não é escutada, quando os dois vivem vidas paralelas dentro da mesma casa.
Esse tema é tão comum que merece um texto só dele, e eu escrevo sobre isso em solidão no casamento.
Sozinha entre amigas e no trabalho
Nas amizades, a solidão acompanhada muitas vezes aparece quando você é sempre a que escuta. Você conhece a vida de todas, mas ninguém conhece a sua. Ou quando o grupo virou só mensagem, meme e encontro rápido, sem espaço pra conversa que aprofunda.
No trabalho, dá pra passar o dia inteiro cercada de gente e voltar pra casa sem ter tido nenhuma troca de verdade. Ambientes muito competitivos, ou onde você precisa manter uma imagem, deixam pouco espaço pra ser vista como pessoa.
Por que isso acontece com algumas mulheres mais do que com outras
Não é regra, mas eu vejo alguns caminhos que se repetem:
- Aprender cedo a não dar trabalho. Quem cresceu achando que precisava ser forte, independente e boazinha pra ser amada muitas vezes aprendeu a esconder o que sente. Aí as pessoas até gostam de você, mas gostam de uma versão editada.
- Ser a cuidadora de todo mundo. Quem cuida muito costuma ter dificuldade de ser cuidada. As relações ficam de mão única, e o vazio cresce do lado de quem dá.
- Medo de ser demais. Medo de incomodar, de parecer carente, de ser rejeitada se mostrar o que sente. Esse medo protege, mas também isola.
- Fases de mudança. Maternidade, separação, mudança de cidade, luto. Nessas fases, a gente muda por dentro e às vezes as relações não acompanham.
Nada disso é defeito. São jeitos de se proteger que fizeram sentido um dia, e que podem ser olhados com carinho hoje.
Solidão acompanhada tem a ver com depressão?
Não necessariamente. A solidão é um sentimento, não um diagnóstico. Mas quando ela dura muito tempo e vem junto com tristeza constante, perda de interesse pelas coisas, cansaço e desânimo, vale buscar uma avaliação com uma psicóloga ou um médico. As duas coisas podem se alimentar.
Se você quer entender melhor como anda a sua solidão, pode fazer o teste de solidão online que eu preparei. São perguntas simples, pra você colocar em palavras o que talvez esteja sentindo há tempo.
O que pode ajudar
Não existe uma saída rápida, mas alguns movimentos pequenos costumam fazer diferença:
- Trocar quantidade por profundidade. Em vez de tentar ter mais gente, tentar ter uma conversa mais verdadeira com uma pessoa só.
- Arriscar um pouco de vulnerabilidade. Contar algo que você normalmente guardaria. Não pra todo mundo, mas pra alguém que pareça seguro.
- Perceber os papéis. Notar onde você está sempre no papel de quem cuida, de quem escuta, de quem resolve. E se perguntar se dá pra, às vezes, sair dele.
- Ter um lugar pra você. A terapia pode ser esse lugar, onde você não precisa cuidar de ninguém e pode falar sem editar. E, com o tempo, entender por que você se sente longe mesmo estando perto.
Se estiver pesado demais
Se essa solidão vier junto com uma tristeza muito funda ou com pensamentos de se machucar, procure ajuda agora. O CVV atende 24 horas, de graça e em sigilo, pelo 188 ou em cvv.org.br.
Sentir-se sozinha mesmo acompanhada não quer dizer que você é ingrata ou que tem algo errado com você. Quer dizer que você precisa ser vista, e isso é humano.
Continue se escutando
Se você se reconheceu nesse texto, o teste de solidão pode te ajudar a olhar pra isso com calma. É gratuito e leva poucos minutos.
Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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