Camuflagem autista na infância: sinais de que você já se escondia
Muitos adultos autistas começaram a camuflar ainda na escola. Veja o que a pesquisa observou em crianças e que lembranças levar pra uma avaliação.
Pra muitos adultos que investigam autismo, a camuflagem não começou na vida adulta. Ela já estava lá na escola: a criança que ficava perto do grupo sem estar de fato brincando, que copiava a melhor amiga, que era "tão comportada" e chegava em casa desmontando. Olhar pra essas lembranças ajuda por dois motivos. Primeiro, porque o diagnóstico de autismo exige que as características estejam presentes desde cedo. Segundo, porque entender de onde a máscara veio costuma diminuir a culpa de hoje.
O que a pesquisa observou em crianças
No recreio. Um estudo nos Estados Unidos observou 96 crianças do ensino fundamental durante o recreio, metade com diagnóstico de autismo (Dean, Harwood e Kasari, 2017). Os meninos autistas tendiam a brincar sozinhos, e isso chamava atenção. As meninas autistas ficavam perto das colegas e entravam e saíam das brincadeiras, o que disfarçava a dificuldade social. As autoras alertam: se quem avalia procurar só a criança isolada no pátio, muitas meninas autistas vão continuar sem ser identificadas.
Em crianças e adolescentes. Outro estudo, com 84 crianças e adolescentes, encontrou que meninas autistas mostravam mais reciprocidade social do que meninos autistas, mesmo com níveis parecidos de traços autistas (Wood-Downie et al., 2021). Os autores interpretam isso como sinal de mais camuflagem, que pode atrasar o reconhecimento e o apoio.
Isso não quer dizer que meninos não camuflem. Quer dizer que, em média, a camuflagem de meninas tem sido mais estudada e parece passar mais despercebida.
Lembranças que costumam aparecer
Quando adultos olham pra trás, algumas lembranças se repetem. Não são critérios de diagnóstico. São pistas pra você anotar, se fizerem sentido:
- Estar perto, mas não dentro. Ficar na borda do grupo, seguindo a brincadeira sem entender bem as regras.
- Copiar alguém. Ter uma amiga "modelo" e imitar o jeito de falar, de se vestir, de reagir.
- Brincar de "fazer de conta" sozinha, com roteiro. Organizar bonecas, inventar mundos detalhados, preferir arrumar a brincadeira a brincar.
- Ser "a boazinha" na escola e ter crises, choro ou irritação intensa em casa.
- Estudar as pessoas. Observar colegas pra saber o que era certo fazer.
- Incômodos sensoriais levados como frescura. Etiqueta de roupa, costura da meia, barulho do refeitório, cheiro de comida.
- Interesses muito intensos que pareciam "normais", como animais, livros, uma série, um artista, mas com uma profundidade fora do comum.
- Ouvir que era madura demais, séria demais, tímida demais ou sensível demais.
Num estudo com mulheres diagnosticadas no fim da adolescência ou na vida adulta, muitas descreveram exatamente isso: anos fingindo ser normal, desde cedo (Bargiela, Steward e Mandy, 2016).
Por que uma criança aprende a se esconder
Ninguém ensina uma criança a camuflar de propósito. Ela aprende pelo que acontece quando não camufla: a bronca por não olhar nos olhos, a risada dos colegas quando falou demais do assunto preferido, a exclusão do grupo. Adultos autistas contam que os motivos pra camuflar incluíam se encaixar e conseguir se conectar com os outros (Hull et al., 2017).
Olhando assim, a camuflagem foi uma solução inteligente de uma criança sem outras opções. Não foi falsidade.
Como usar essas lembranças numa avaliação
Como o diagnóstico de autismo olha pra história desde o começo da vida, as lembranças da infância são uma parte importante da avaliação. Algumas coisas ajudam:
- Escreva o que lembrar, sem filtrar. Brincadeiras, escola, amizades, comida, roupas, crises.
- Converse com quem conviveu com você, se for possível e seguro. Pais, irmãos, uma tia. Às vezes eles lembram de detalhes que você esqueceu.
- Procure boletins, cadernos, fotos, vídeos. Comentários de professores costumam ser reveladores.
- Leve tudo pra consulta com psiquiatra ou neuropsicóloga que tenha experiência com adultos.
Se a família não estiver disponível ou não lembrar, a avaliação ainda é possível. O profissional trabalha com o que houver.
Um jeito de começar
O teste de autismo em adultos usa o RAADS-14, que pergunta sobre coisas que você sente hoje e sentia na infância. O teste de camuflagem autista, com a CAT-Q, mostra o quanto você se adapta hoje pra se encaixar. Nenhum dos dois diagnostica, mas os dois ajudam a organizar o que levar pra uma avaliação.
Se lembrar da infância trouxer coisas difíceis, você não precisa fazer isso sozinha. Na terapia, dá pra olhar pra essa criança com mais cuidado do que ela recebeu na época. Falo também sobre isso em diagnóstico tardio de autismo.
Se estiver pesado demais, com vontade de sumir ou pensamentos de se machucar, o CVV atende 24h pelo 188 ou em cvv.org.br.
Este texto é informativo e não substitui avaliação profissional. Não é diagnóstico.
Continue se escutando
Se você se reconheceu nesse texto, o teste de camuflagem autista (CAT-Q) pode te ajudar a olhar pra isso com calma. É gratuito e leva poucos minutos.
Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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