Autismo em mulheres e camuflagem: o que a pesquisa encontrou
Estudos mostram que mulheres autistas relatam mais camuflagem que homens autistas. Veja o que se sabe, o que ainda é incerto e por que isso atrasa o diagnóstico.
A pesquisa mostra, de forma bem consistente, que mulheres autistas relatam mais camuflagem do que homens autistas. Entre pessoas não autistas, essa diferença entre gêneros não aparece. Isso ajuda a explicar por que o autismo em mulheres tende a ser identificado mais tarde. Ao mesmo tempo, camuflar não é "coisa de mulher": homens e pessoas não binárias autistas também camuflam, e o que muda é a média, não a regra.
O que os estudos encontraram
Uma diferença que aparece só entre autistas. Num estudo com 306 adultos autistas e 472 não autistas, mulheres autistas pontuaram mais que homens autistas na CAT-Q, o questionário de camuflagem. Entre os não autistas, homens e mulheres pontuaram parecido (Hull et al., 2020). As diferenças apareceram nas partes de mascaramento (esconder o que sente e o que o corpo faz) e assimilação (tentar se misturar, sensação de atuar). Na parte de compensação, não.
Uma distância maior entre o por fora e o por dentro. Outro estudo comparou 60 homens e mulheres autistas e mediu a diferença entre o comportamento observado numa avaliação e os traços relatados pela própria pessoa. Em média, as mulheres tinham uma distância maior, ou seja, pareciam menos autistas por fora do que se descreviam por dentro (Lai et al., 2017).
Motivos um pouco diferentes. Num levantamento com 262 pessoas autistas, mulheres citaram mais os motivos "convencionais" pra camuflar, como dar conta de ambientes formais e do trabalho (Cage e Troxell-Whitman, 2019).
O que ainda não está fechado
Uma revisão sistemática de 29 estudos concluiu que existem diferenças de sexo e gênero na camuflagem, mas também apontou limites: amostras pouco diversas, muita gente recrutada pela internet, formas diferentes de medir (Cook et al., 2021).
Então dá pra dizer com segurança que a diferença aparece nos estudos. Ainda não dá pra dizer o quanto ela vem de pressão social, de diferenças na apresentação do autismo ou do fato de que as mulheres que chegam às pesquisas já são, em parte, as que foram diagnosticadas apesar da camuflagem.
Por que isso atrasa o diagnóstico
Uma metanálise de 54 estudos estimou a proporção de meninos pra meninas no autismo em torno de 4 pra 1 no geral. Mas, nos estudos que rastrearam a população inteira, e não só quem já tinha diagnóstico, a proporção caiu pra perto de 3 pra 1. Os autores levantam a hipótese de que parte das meninas que preenchem critério não está sendo identificada (Loomes, Hull e Mandy, 2017).
Quando a camuflagem funciona, a avaliação curta vê pouca coisa. A pessoa olha nos olhos, conversa, faz piada, tem amigas. O esforço fica escondido, e o que aparece é o efeito colateral: ansiedade, depressão, exaustão, às vezes um transtorno alimentar. Muitas vezes esses diagnósticos chegam antes, e o autismo fica de fora por anos.
Num estudo com 14 mulheres diagnosticadas no fim da adolescência ou na vida adulta, a expressão que se repetiu foi fingir ser normal (Bargiela, Steward e Mandy, 2016). Elas contaram de profissionais que descartaram o autismo por causa desse "desempenho" social.
O custo da camuflagem nas mulheres com traços autistas
Um estudo com 58 mulheres com traços autistas, a maioria sem diagnóstico formal, encontrou que camuflar mais estava associado a mais sofrimento: depressão, ansiedade e estresse. Entre as que camuflavam acima da média, a camuflagem também se associou a pensamentos de suicídio e dificuldade de funcionar no dia a dia (Beck et al., 2020). O título do artigo resume bem: parecer bem, se sentir mal.
Isso não quer dizer que toda mulher que camufla vai adoecer. Quer dizer que o esforço invisível merece ser levado a sério, inclusive por quem avalia.
Se você se reconheceu
Reconhecer-se em relatos de camuflagem é um bom motivo pra olhar com mais cuidado, não uma conclusão. Alguns caminhos possíveis:
- Fazer o teste de camuflagem autista, com as 25 frases da CAT-Q, pra ver em que partes você mais se adapta.
- Fazer o teste de autismo em adultos, com o RAADS-14, se a dúvida for sobre autismo.
- Ler sobre diagnóstico tardio de autismo e sobre os sinais de autismo em mulheres adultas.
- Procurar avaliação com psiquiatra ou neuropsicóloga com experiência em autismo em adultos.
Na terapia, eu não faço diagnóstico de autismo. O que ofereço é um espaço onde você não precisa atuar, pra entender o que essa adaptação protegeu e o que ela está custando hoje.
Se estiver pesado demais, com vontade de sumir ou pensamentos de se machucar, o CVV atende 24h pelo 188 ou em cvv.org.br.
Este texto é informativo e não substitui avaliação profissional. Não é diagnóstico.
Continue se escutando
Se você se reconheceu nesse texto, o teste de camuflagem autista (CAT-Q) pode te ajudar a olhar pra isso com calma. É gratuito e leva poucos minutos.
Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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