Resumo
Este estudo teve como objetivo investigar de que maneira a pressão estética, intensificada pelas redes sociais, influencia a construção da autoimagem em mulheres adultas. A pesquisa foi conduzida a partir de uma abordagem qualitativa, de natureza empírico-fenomenológica, inspirada no método proposto por Amedeo Giorgi, com foco na compreensão das experiências subjetivas das participantes diante da exposição a padrões estéticos normativos. Participaram da pesquisa quatro mulheres, com idades entre 18 e 50 anos, pertencentes a diferentes faixas etárias e grupos étnico-raciais. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas individuais, nas quais as participantes foram expostas a estímulos imagéticos e audiovisuais representativos dos padrões hegemônicos de beleza nas redes sociais. As entrevistas foram transcritas e analisadas segundo as etapas do método fenomenológico de Giorgi, contemplando a leitura global, a identificação das unidades de significado, a transformação em linguagem psicológica e a síntese da estrutura essencial da experiência vivida. Os resultados revelaram que a autoimagem feminina é fortemente mediada por vetores socioculturais, como os padrões estéticos eurocêntricos, a cultura de consumo e a influência das redes sociais, que intensificam a comparação e a autocrítica. No entanto, também emergiram estratégias de regulação e resistência, expressas por meio da aceitação corporal, do amadurecimento e da consciência crítica sobre esses ideais de beleza. As discussões apontam que o feminismo, o autocuidado e a seletividade de conteúdo nas redes sociais se configuram como caminhos de reapropriação do corpo e de fortalecimento da autonomia feminina. Conclui-se que a pressão estética atua como um fator significativo na formação da autoimagem, mas que as mulheres, em diferentes estágios de vida, desenvolvem formas singulares de enfrentamento, resistência e ressignificação.
Palavras-chave: autoimagem, mulheres, redes sociais, corpo feminino, pressão estética.
Introdução
Em um contexto social atravessado pela lógica da performance, da imagem e do consumo, os corpos femininos tornaram-se vitrines de um ideal inatingível. A aparência passou a ocupar um lugar central na construção da identidade, principalmente entre mulheres, cuja autoestima e percepção de si são constantemente confrontadas por padrões normativos de beleza e feminilidade. Essa pressão estética, intensificada pela exposição diária nas redes sociais, transforma o corpo em um campo de vigilância e disciplina, marcando profundamente a experiência subjetiva feminina.
As redes sociais, enquanto tecnologias de conexão e visibilidade, também operam como dispositivos de normatização, reforçando modelos corporais hegemônicos e promovendo ciclos de comparação, inadequação e sofrimento. Como destacam Frois, Moreira e Stengel (2011), o corpo feminino é moldado por discursos midiáticos que impõem ideais estéticos distantes da realidade vivida pelas mulheres, resultando em distorções de autoimagem e baixa autoestima. Para Hooks (2019), resistir a essa lógica é um ato político: recusar-se a ser definida pela aparência é uma forma de romper com o patriarcado.
A influência desses padrões não se limita à dimensão estética; ela alcança o campo psicológico, afetando o bem-estar, as relações e a autonomia subjetiva das mulheres. Novaes (2011) afirma que vivemos em uma sociedade imagética, na qual o valor do sujeito é medido por sua aparência. Nesse cenário, a feiura, frequentemente associada à gordura ou ao envelhecimento, tornou-se uma forma socialmente aceita de exclusão. Tais dinâmicas não só alimentam o mercado da beleza, mas sustentam uma estrutura que lucra com o sofrimento feminino.
Este trabalho nasceu da necessidade de compreender como a pressão estética, intensificada pelas redes sociais, interferiu na autoimagem e na saúde mental das mulheres. A partir dessa problemática, formulou-se a seguinte pergunta de pesquisa: de que maneira a pressão estética, amplificada pelas redes sociais, influencia a construção da autoimagem em mulheres adultas? Mais do que mapear sintomas, buscou-se escutar e visibilizar experiências, oferecendo subsídios para uma atuação clínica e social mais crítica, acolhedora e libertadora.
Para alcançar esse objetivo, foi conduzida uma pesquisa qualitativa de base fenomenológica, ancorada na abordagem empírico-fenomenológica proposta por Amedeo Giorgi. O estudo contou com a participação de quatro mulheres de diferentes faixas etárias e pertencimentos étnico-raciais, selecionadas intencionalmente. As entrevistas foram realizadas de forma individual, sendo três conduzidas presencialmente e uma de modo online, em razão de a participante residir fora do país, embora seja brasileira.
Antes do início das entrevistas, foi apresentado e explicado às participantes o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), garantindo a compreensão e o aceite voluntário da participação. Em seguida, deu-se início à entrevista semiestruturada, composta por duas etapas. A primeira consistiu em perguntas organizadas por blocos temáticos relacionados ao objeto de estudo. Na segunda etapa, procedeu-se à exposição de estímulos imagéticos e audiovisuais que representavam padrões hegemônicos de beleza, seguida pela continuidade da entrevista semiestruturada, com novas perguntas voltadas à percepção das participantes frente aos materiais apresentados.
A análise dos dados buscou apreender as essências da experiência vivida por meio da descrição das percepções das participantes diante dos padrões corporais normativos disseminados nas redes sociais. O projeto foi submetido à aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa em julho de 2025, conforme as diretrizes da Resolução CNS nº 466/2012.
Referencial teórico
Corpo
De acordo com o dicionário Aurélio, corpo é definido como “o conjunto de sistemas orgânicos que constituem o organismo humano ou animal, especialmente no que se refere à sua configuração externa” (Ferreira, 2004, p. 525). No entanto, para além da dimensão biológica, o corpo deve ser compreendido como uma entidade histórica, simbólica, social e culturalmente construída.
Na perspectiva de Le Breton (2007), o corpo é o centro de mediação entre o sujeito e o mundo, sendo ao mesmo tempo objeto e sujeito das experiências humanas. Ele não é dado de forma neutra e universal, mas atravessado por significados que variam conforme as práticas sociais, valores culturais, políticas institucionais e tecnologias disponíveis em determinado contexto. A corporeidade, portanto, é sempre mediada por símbolos, normas e ideologias que organizam a forma como cada sociedade percebe, regula e valoriza o corpo.
Esse entendimento é amplificado por Foucault (1996), que afirma que o corpo moderno se encontra submetido a dispositivos de poder que o disciplinam, normatizam e o transformam em objeto de docilidade e utilidade. Em sua análise, o corpo não é apenas controlado, mas também produzido por meio de práticas discursivas e instituições sociais. O capítulo “Poder-Corpo” da obra Microfísica do Poder explicita como as relações de poder penetram o corpo de forma capilar, moldando gestos, posturas e percepções, tornando-o alvo e veículo do exercício do poder.
Essa moldagem corporal se torna ainda mais evidente na sociedade contemporânea, onde, segundo Dantas (2011), o culto ao corpo estabelece um imperativo estético de perfeição física, estreitamente associado à juventude, saúde e sucesso. A autora destaca como os meios de comunicação reforçam ideais inalcançáveis, transformando o corpo em um projeto infindável de aperfeiçoamento e em objeto de investimento econômico, emocional e simbólico. O corpo contemporâneo, portanto, é um território de desejo, consumo e identidade.
Complementando essa discussão, Araiza e Gisbert (2007) ressaltam como o corpo tem se tornado um local privilegiado para a atuação de biotecnologias e do discurso capitalista contemporâneo. As possibilidades de transformação corporal – como cirurgias estéticas, biomedicina, manipulação hormonal, biotecnologias e cultura de celebridade – tornam o corpo um campo de projeto pessoal e social. Segundo os autores, vivemos a era do "corpo programa": uma superfície aberta à edição, modificação e constante intervenção, um espaço em que a subjetividade é moldada pelos dispositivos de saber e poder.
Na perspectiva fenomenológica de Merleau-Ponty (1994), retomada por Alvim (2011), o corpo é concebido como um "corpo próprio", que não se reduz à matéria (Körper), mas é também experiência vivida (Leib). Ele é o ponto de partida da existência no mundo, um "eu posso" que antecede o "eu penso", sendo centro de percepção, ação e expressão. Para a Gestalt-terapia, dialogando com essa visão, o corpo é o campo em que se desenrola o processo de awareness, o qual se dá na fronteira entre o organismo e o ambiente, e que se expressa por meio da ação corporal e da sensação presente.
A integração entre Gestalt-terapia e fenomenologia permite compreender que as experiências corporais, mesmo aquelas automatizadas ou anestesiadas pela normatização social, podem ser recuperadas na clínica por meio da atenção sensível ao corpo presente.Como destaca Alvim (2011), é pela revalorização da corporeidade e do fluxo sensorial que se restabelece o processo criativo, libertando o sujeito da alienação das formas fixadas. Esse resgate devolve ao indivíduo a vivência de possibilidades, a potência do “eu posso” e a reconexão com o mundo como espaço de criação e expressão.
Portanto, discutir o corpo hoje exige uma abordagem integral, que articule filosofia, psicologia, história e cultura. O corpo é, ao mesmo tempo, linguagem, lugar de resistência, espaço de inscrição do poder e horizonte de transformação. Ele nos constitui e nos comunica ao outro, sendo território de disputa entre o ser e o parecer, entre a autenticidade e a performance, entre o desejo e a norma. Compreender o corpo como instância viva e situada é condição essencial para refletir sobre autoimagem, identidade e saúde mental em tempos de hegemonia da aparência.
Corpo Feminino
“Quando mulheres se recusam a ser definidas pelo corpo e pela aparência, e se apropriam de si mesmas como sujeitos, o patriarcado perde poder” (Hooks, 2019, p. 46).
Essa afirmação de Hooks aponta para a dimensão política e libertadora da relação das mulheres com o próprio corpo, relação essa que foi historicamente atravessada por estruturas de poder, dominação e controle. O corpo feminino, longe de ser uma realidade biológica neutra, foi e ainda é socialmente construído como objeto de vigilância, desejo e normatização. Dentro das sociedades patriarcais, o corpo da mulher é frequentemente reduzido a um território a ser conquistado ou moldado segundo os ideais dominantes de feminilidade, pureza, sexualidade ou domesticidade.
Ao longo da história, como mostram Boris e Cesídio (2007), a subjetividade feminina foi moldada sob forte influência do patriarcado, que destinava à mulher papéis sociais fixos: procriar, servir e agradar. O corpo feminino, nesse contexto, era um corpo submisso, controlado por normas morais, religiosas e estéticas que o vinculavam ao espaço doméstico e à obediência. Com o advento do capitalismo, essa lógica não se extingue, mas se reformula: o corpo da mulher passa a ser simultaneamente explorado como força de trabalho e estetizado como mercadoria. Na contemporaneidade, essa dinâmica se intensifica, com o corpo feminino se tornando epicentro do consumo e do desejo, exigindo da mulher uma performance constante de juventude, magreza e sensualidade.
Novaes (2011) contribui de forma contundente para essa análise ao afirmar que, em uma sociedade imagética, em que o sujeito é definido por sua aparência, o corpo feminino torna-se alvo de múltiplas regulações sociais que produzem sofrimento psíquico profundo. A autora destaca como a beleza foi historicamente associada à mulher, enquanto a feiura, hoje atrelada à gordura e ao envelhecimento, tornou-se uma forma de exclusão social validada culturalmente. Essa equação cruel transforma o corpo feminino em um marcador de valor social, onde ser jovem, magra e bela é quase uma exigência para ser aceita, admirada e até mesmo respeitada. As mulheres, portanto, vivem sob uma constante ameaça simbólica: a de deixarem de existir socialmente caso não correspondam ao ideal estético hegemônico.
Essa normatização produz uma série de efeitos psíquicos — ansiedade, baixa autoestima, distorção da autoimagem, sofrimento emocional — e é constantemente alimentada pelas mídias sociais, publicidade e discursos médicos, que prometem “corpos perfeitos” em troca de disciplina, consumo e autocontrole. Como bem observa Novaes (2011), essa “tirania da aparência” não apenas anula a diversidade dos corpos como também reforça mecanismos de exclusão social que atingem especialmente mulheres negras, gordas, trans, idosas ou com deficiência, revelando o caráter estrutural da violência estética.
Del Priore (1997) também reforça a ideia de que o corpo da mulher no Brasil foi historicamente atravessado por relações de poder racializadas e sexualizadas, o que torna ainda mais complexa a vivência corporal feminina em uma sociedade marcada por desigualdades de gênero, raça e classe. Ao reduzir a mulher à sua aparência, nega-se sua subjetividade e sua potência enquanto sujeito político.
Essa crítica é ficcionalmente representada no filme A Substância (2024), da diretora Coralie Fargeat. A trama acompanha uma atriz de meia-idade, descartada pela indústria cinematográfica por não atender mais ao ideal de juventude e beleza, que decide consumir uma substância experimental capaz de regenerar seu corpo. No entanto, a promessa de perfeição física se transforma em um pesadelo grotesco, revelando os limites, a violência e a desumanização que operam quando o corpo feminino é reduzido a um projeto estético. O filme denuncia de forma metafórica e intensa a lógica perversa do culto à juventude, à magreza e à aparência, revelando o custo subjetivo de se tentar habitar um corpo que corresponda às expectativas sociais, midiáticas e patriarcais. A experiência da protagonista torna-se um grito contra a medicalização, a performatização e a despersonalização da mulher contemporânea.
Outrossim, essa crítica é endossada por Almeida (2014), ao discutir o corpo feminino como território de violência de gênero e dispositivo de poder. A autora mostra que a alteridade do corpo da mulher — sua “diferença” em relação ao corpo masculino normativo — é frequentemente usada como justificativa para agressões simbólicas e físicas, que vão desde a objetificação midiática até o feminicídio. Essa violência é atualizada por meio da mídia, das instituições e das práticas sociais, e afeta com intensidade ainda maior as mulheres negras, pobres, LGBTQIA+ e aquelas que fogem dos padrões corporais normativos.
Nesse cenário, Hooks (2019) nos convida a ressignificar o corpo feminino a partir da política da libertação: deixar de vê-lo como objeto de aprovação externa e entendê-lo como território de resistência, prazer, criação e protagonismo. O feminismo, nesse sentido, não busca apenas combater a opressão que incide sobre os corpos, mas também promover uma ética de liberdade e mutualidade, em que as mulheres possam habitar seus corpos de maneira plena, autônoma e não violenta.
Assim, compreender o corpo feminino no contexto atual exige uma leitura crítica que considere as interseções entre gênero, classe, raça, sexualidade e mídia, bem como os efeitos subjetivos dessas opressões na vida das mulheres. Mais do que uma “embalagem” ou uma imagem, o corpo feminino é um lugar de disputa entre o poder normativo e a possibilidade de uma subjetividade livre, diversa e politicamente engajada.
Autoimagem
A autoimagem, segundo Carl Rogers (1977), é a percepção organizada e consistente que o indivíduo tem de si mesmo. Ela é composta pelas qualidades, atributos, valores e papéis que a pessoa acredita possuir. Para Rogers, a autoimagem está intimamente ligada ao conceito de self, que pode ser entendido como a visão subjetiva que cada pessoa constrói de si ao longo das experiências vividas. Quando há uma grande incongruência entre a autoimagem e o self ideal (aquilo que o indivíduo gostaria de ser), podem surgir sentimentos de inadequação, baixa autoestima e sofrimento psíquico. Dessa forma, uma autoimagem saudável é aquela que se mantém flexível e coerente com a vivência do sujeito, permitindo ajustamentos criativos às novas experiências.
No campo da Psicologia, a Gestalt-terapia oferece recursos teóricos e clínicos importantes para compreender o impacto dos discursos normativos na construção da autoimagem. Um dos conceitos centrais dessa abordagem é o de awareness, que pode ser compreendido como a consciência plena e integrada do que se faz, sente e pensa no momento presente. Segundo Polster e Polster (2001), é por meio da sucessiva ampliação da conscientização que o indivíduo se aproxima dos temas centrais de sua vida, podendo expressá-los de forma mais autêntica. Assim, o corpo deixa de ser apenas imagem visual ou objeto de avaliação externa, e passa a ser reconhecido como território de sensações, histórias e significados vividos, acessados no aqui-e-agora da experiência.
Dentro dessa perspectiva, a autoimagem é concebida como um fenômeno dinâmico e relacional, que se constitui na fronteira de contato entre o sujeito e o mundo. É nesse ponto de contato que o corpo emerge como experiência, como lugar de construção de si, e não apenas como superfície estética. A Gestalt-terapia, ao enfatizar o valor do corpo vivido e sentido, convida a uma escuta mais profunda dos efeitos da exposição constante a padrões estéticos normativos, como aqueles veiculados pelas redes sociais, sobre a forma como as mulheres percebem e experienciam a si mesmas.
No contexto contemporâneo, a autoimagem é profundamente impactada pelos padrões estéticos disseminados pelas mídias. Frois, Moreira e Stengel (2011) discutem como a valorização de características como juventude, magreza, musculatura e ausência de imperfeições influencia diretamente a construção da identidade corporal, especialmente entre mulheres e adolescentes. A exposição constante a imagens idealizadas de corpos pode gerar uma desarmonia entre o corpo vivido e o corpo desejado, contribuindo para sentimentos de inadequação e estranhamento.
Nesse sentido, Berger (1980) aprofunda essa reflexão ao apontar que a mulher é ensinada, desde cedo, a ver-se sendo vista. Essa cisão entre o “ser” e o “parecer” cria um olhar interiorizado que constantemente avalia a própria aparência segundo os padrões externos. Assim, a autoimagem feminina torna-se moldada por uma espécie de vigilância incorporada, na qual a mulher atua simultaneamente como observadora e objeto observado de si mesma.
Esse processo é ainda mais acentuado pelo que Santaella (2012) chama de “alfabetização visual”. Para a autora, vivemos cercados por imagens e aprendemos a significar o mundo a partir delas. No entanto, essas imagens não são neutras, pois carregam valores sociais, estéticos e simbólicos que impactam diretamente a maneira como cada sujeito se percebe e organiza sua experiência no mundo.
Do mesmo modo, Bruner (1997) complementa ao afirmar que a construção da identidade ocorre por meio de narrativas de si. A autoimagem, portanto, é também um enredo pessoal: uma forma que o sujeito encontra para organizar e dar sentido às suas vivências corporais, emocionais e sociais. No entanto, quando essas narrativas são invadidas por discursos externos que impõem um ideal de corpo, beleza ou sucesso, ocorre um ruído identitário, comprometendo o sentimento de continuidade e autenticidade do eu.
Por fim, Frois et al. (2011) alertam que as mídias atuam como forças estruturantes da autoimagem contemporânea, promovendo um ideal de corpo que é simultaneamente inatingível e efêmero. A consequência disso é uma constante insatisfação corporal que afeta a construção da identidade, gerando ciclos de sofrimento psíquico. Compreender a autoimagem como uma construção simbólica, relacional e histórica é essencial para promover práticas clínicas e sociais que favoreçam o reconhecimento da singularidade dos corpos e o acolhimento da diversidade. Esse desafio se intensifica no ambiente das redes sociais digitais, onde os ideais estéticos são não apenas divulgados, mas também reproduzidos, performados e validados em tempo real. Esses aspectos serão aprofundados na próxima seção.
Redes Sociais
Na contemporaneidade, as redes sociais digitais não operam apenas como ferramentas de comunicação, mas como estruturas fundamentais da vida social. Castells (1999) define essa configuração como sociedade em rede, caracterizada pela interconexão global, pela velocidade da informação e pela centralidade das redes na organização econômica, cultural e subjetiva do mundo. Nesse contexto, a identidade e a autoimagem passam a ser mediadas por lógicas informacionais e simbólicas que escapam dos vínculos locais e se atualizam continuamente em tempo real. As redes sociais digitais, como Instagram e TikTok, exemplificam esse fenômeno ao transformarem a visibilidade do corpo em moeda de valor social, afetando de maneira profunda as experiências de pertencimento, reconhecimento e autoestima.
Segundo Frois, Moreira e Stengel (2011), a mídia, sobretudo a digital, influencia a construção da imagem corporal ao oferecer modelos padronizados e idealizados, frequentemente desconectados da realidade biológica, afetiva e social das usuárias. Nesse processo, a imagem do corpo feminino passa a ser regulada por expectativas externas, transformando-se em um corpo-imagem moldado a partir de exigências midiáticas e culturais. Essa dissonância entre a imagem real e o corpo ideal promovido pelas redes sociais tende a gerar sentimentos de inadequação, insatisfação e sofrimento, especialmente durante fases de vulnerabilidade identitária, como a adolescência.
Estudos como o de Matos e Cruz (2024) demonstram que plataformas como o TikTok intensificam a comparação corporal entre usuárias, levando a sentimentos de frustração, baixa autoestima e vergonha. A exposição constante a corpos idealizados, frequentemente editados e irreais, acentua o desejo de alcançar tais padrões, muitas vezes inatingíveis, o que pode desencadear transtornos como o Transtorno Dismórfico Corporal (Paula et al., 2023).
Além disso, a coisificação da mulher nos ambientes digitais reforça a lógica da instrumentalização do corpo como objeto de desejo e consumo. Azevedo e Mauro (2018) apontam que as mídias sociais atuam como dispositivos de violência simbólica, ao perpetuar estereótipos de gênero e impor um padrão estético que reduz a mulher à sua aparência física. Essa dinâmica contribui para a naturalização da pressão estética como parte da experiência feminina, promovendo um ciclo de insatisfação, endividamento com procedimentos estéticos e sofrimento psicológico.
Do ponto de vista psicossocial, Meneses e Sarriera (2005) destacam que as redes sociais, enquanto sistemas abertos em constante construção, influenciam diretamente a constituição do sujeito, ao estabelecerem normas de reconhecimento, pertencimento e valor social. As interações digitais, portanto, não são neutras: elas estão imbuídas de expectativas sociais que configuram o que é visto como "corpo aceitável", impactando diretamente a saúde mental das mulheres ao reforçar padrões excludentes e normativos.
Além disso, como argumentam Zanello et al. (2015), o sofrimento psíquico das mulheres é atravessado por valores e ideais de gênero que se atualizam nas redes sociais, promovendo uma forma contemporânea de vigilância sobre o corpo feminino. A idealização da magreza, juventude e perfeição física converte-se em exigência moral, internalizada como autovigilância e autoexigência. Isso gera um campo de sofrimento muitas vezes silenciado, mas que revela a face gendrada da angústia psíquica feminina em tempos de hiperconectividade.
Diante desse cenário, torna-se urgente a promoção de uma cultura digital mais crítica e inclusiva, que favoreça a diversidade corporal, a aceitação de si e o empoderamento subjetivo das mulheres. Logo, a problematização dos conteúdos consumidos, bem como a produção de narrativas alternativas que celebrem a multiplicidade dos corpos e experiências, configura-se como uma estratégia fundamental para o enfrentamento dos impactos negativos das redes sociais na saúde mental feminina.
Revisão de Literatura
Em 11 de março de 2025, foi realizada uma busca por artigos científicos nas plataformas CAPES, EBSCO e SciELO, utilizando inicialmente os descritores "autoimagem" e "mulheres" e, posteriormente, "autoimagem", "mulheres" e "pressão estética". A busca resultou em um total de 26 publicações. Após a leitura dos títulos, 19 artigos foram excluídos por abordarem um público de mulheres inserido em contextos bastante específicos, como, por exemplo, a percepção da autoimagem em mulheres mastectomizadas. A leitura dos resumos possibilitou a exclusão de mais um artigo, pois, embora tratasse da relação entre pressão estética e autoimagem feminina, sua amostra era composta exclusivamente por adolescentes do sexo feminino. Dessa forma, apresenta-se a seguir a revisão de literatura, composta pelos artigos selecionados após os critérios de triagem estabelecidos.
Com a finalidade de investigar a influência das pressões estéticas na percepção da autoimagem corporal feminina, Sousa Júnior (2023) realizou uma pesquisa quantitativa com 246 respondentes brasileiras, a qual revelou, através da Escala de Nove Silhuetas, que mulheres com diferentes arquétipos corporais apresentam percepções distorcidas sobre si mesmas. Mulheres magras se enxergam como sobrepesas, enquanto mulheres gordas têm dificuldade em reconhecer valor em si mesmas devido ao corpo que apresentam à sociedade. O autor destacou em seu estudo a necessidade de valorizar a beleza a partir de sua multiplicidade, especialmente no Brasil, um país com grande diversidade de corpos e culturas. Além disso, ressaltou que é preciso questionar os padrões europeus e norte-americanos de beleza, libertando mulheres do "mercado da beleza" e dos sacrifícios sociais, financeiros e estéticos que ele impõe.
De acordo com Novaes & Vilhena (2003), a beleza se tornou um "dever moral" para as mulheres, com o fracasso em atingir os padrões estéticos sendo visto como uma incapacidade individual. O artigo explorou, mediante a uma análise teórica e reflexiva, a crescente pressão estética sobre as mulheres na sociedade contemporânea. As autoras argumentam que a feiura, especialmente associada à gordura, é uma forma de exclusão social, com menos tolerância para desvios dos padrões estéticos estabelecidos. Ademais, o estudo analisa como a cultura moderna, com seu foco no individualismo e na imagem corporal, contribui para essa pressão, levando as mulheres a buscarem incessantemente a perfeição através de dietas, exercícios e cirurgias, muitas vezes internalizando um olhar crítico e persecutório sobre seus próprios corpos. A imposição da beleza como uma obrigação, impulsionada pela mídia e pela indústria da beleza, gera insatisfação e sofrimento, transformando o corpo em um campo de batalha onde a busca pela aceitação social se torna uma luta constante contra a própria imagem e a finitude (Novaes & Vilhena, 2003).
Outrossim, Godoi et al. (2024) se propuseram a investigar a complexa relação entre a percepção da estética, a qualidade de vida e a satisfação com a autoimagem corporal em mulheres, analisando como os padrões estéticos contemporâneos influenciam diversos aspectos da vida feminina. Para tanto, foi adotada uma metodologia qualitativa e bibliográfica, caracterizada pela análise de obras e documentos já publicados sobre o tema, buscando consolidar e comparar diferentes perspectivas teóricas. A pesquisa explorou fatores sociais, culturais e psicológicos que contribuem para a formação das percepções sobre a imagem corporal feminina, bem como as estratégias que as mulheres adotam para lidar com a pressão estética.
A análise revelou que a busca por padrões estéticos idealizados, impulsionada pela mídia e pelas redes sociais, impacta significativamente a autoestima e o bem-estar psicológico das mulheres, levando-as a adotarem medidas extremas e a internalizarem um olhar crítico sobre seus próprios corpos. A estética foi identificada como um fator crucial na formação da satisfação com a imagem corporal, influenciando não apenas aspectos emocionais, mas também comportamentais e cognitivos, com implicações notáveis na qualidade de vida e na saúde mental. Os resultados destacam a importância de promover uma abordagem mais saudável e realista em relação à estética, incentivando a aceitação da diversidade de corpos e a valorização da autoestima e do bem-estar emocional, além de ressaltar o papel fundamental dos profissionais de estética como conselheiros de bem-estar que ajudam as mulheres a entender e aceitar suas características únicas, promovendo uma visão inclusiva e diversificada da beleza (Godoi et al., 2024).
A comparação com corpos idealizados pode levar a uma percepção negativa da própria imagem corporal, resultando em sentimentos de autodepreciação e frustração. Nesse sentido, com o objetivo de investigar se os conteúdos publicados na mídia digital TikTok exercem influência na percepção da imagem corporal de mulheres, Matos e Cruz (2024) analisaram 137 comentários femininos na plataforma que expressam comparações com corpos idealizados em vídeos. A partir da metodologia qualitativa, baseada na observação sistemática e na análise de conteúdo,as autoras identificaram que a exposição a padrões de beleza nas mídias sociais intensifica a insatisfação corporal e promove uma série de consequências psicológicas negativas. As principais categorias de análise foram: a explicitação da comparação, a idealização do corpo exibido como meta, a percepção de impossibilidade em alcançar esse ideal, e os sentimentos de sofrimento, baixa autoestima e humilhação resultantes.
A pesquisa destacou que a pressão estética, exacerbada pela cultura machista, associa a beleza à validação social e ao sucesso amoroso, fomentando a competição entre mulheres e a busca incessante por um padrão de beleza inatingível. Essa dinâmica leva a comportamentos alimentares disfuncionais e a uma autoimagem negativa, onde o corpo se torna um objeto de constante avaliação e insatisfação. O estudo concluiu que a mídia social, ao promover padrões de beleza irreais, contribui significativamente para a desvalorização pessoal e para a internalização de um olhar crítico sobre o próprio corpo, reforçando a necessidade de uma reflexão crítica sobre os conteúdos consumidos na internet (Matos & Cruz, 2024).
Similarmente, a influência das redes sociais na constituição da autoimagem feminina foi analisada por Paula et al. (2023). Por meio de uma revisão de literatura, os autores investigaram de que forma os padrões estéticos disseminados nessas plataformas digitais impactam na percepção corporal das mulheres, bem como sua possível relação com o desenvolvimento do Transtorno Dismórfico Corporal (TDC). O estudo revelou que a busca incessante pelo corpo perfeito pode levar ao desenvolvimento do TDC e à procura por intervenções estéticas, alimentando uma cultura de consumo direcionada à transformação corporal. A pesquisa destacou a importância de equilibrar o impacto das mídias sociais com o bem-estar mental e a autoaceitação das mulheres, promovendo um ambiente digital mais saudável e compassivo, onde a busca pelo corpo ideal não seja uma fonte de sofrimento, mas sim um espaço de expressão e empoderamento individual, prevenindo o desenvolvimento do TDC.
Segundo Azevedo e Mauro (2018), a mídia pode ser utilizada como um instrumento de coisificação e instrumentalização da mulher, reduzindo-a a um objeto de desejo e consumo. Por meio de uma pesquisa bibliográfica, destacaram como a disseminação de padrões de beleza idealizados pelos meios de comunicação contribui para a violação dos direitos humanos femininos, especialmente no que se refere à integridade mental e moral. A pressão estética é vista como uma forma de violência psicológica que perpetua estereótipos de gênero e mantém as mulheres em uma posição de submissão. A pesquisa revelou que a mídia, ao objetificar o corpo feminino e promover uma cultura de subjugação, contribui para a manutenção de desigualdades de gênero e reforça a necessidade de combater esses padrões midiáticos. As autoras salientaram como a busca por um ideal de beleza inatingível leva muitas mulheres a se endividarem com tratamentos estéticos e cirurgias plásticas, gerando um ciclo vicioso de insatisfação e sofrimento. Além disso, o estudo ressaltou a importância de políticas públicas e ações que incentivem a mídia a promover uma imagem mais diversa e realista da mulher, valorizando suas qualidades e contribuições em todas as esferas da sociedade, para garantir a dignidade e a integridade dos direitos humanos femininos.
Diante dos estudos apresentados, observa-se uma convergência quanto aos impactos negativos da pressão estética na percepção da autoimagem corporal feminina. Pesquisas como a de Sousa Júnior (2023) evidenciam distorções significativas entre a imagem percebida e a real, mesmo entre mulheres magras, reforçando a internalização de padrões inalcançáveis. Novaes e Vilhena (2003) destacam a imposição da beleza como obrigação moral, enquanto Godoi et al. (2024) ampliam essa discussão ao associarem a estética à saúde mental e à qualidade de vida. As mídias sociais, segundo Matos e Cruz (2024) e Paula et al. (2023), emergem como potentes disseminadoras de ideais irreais, intensificando a autocrítica, a insatisfação corporal e, em casos extremos, contribuindo para o desenvolvimento de transtornos como o Transtorno Dismórfico Corporal. Por fim, Azevedo e Mauro (2018) enfatizam a dimensão política e social dessa pressão, apontando a coisificação da mulher e a violação de seus direitos humanos como consequências diretas da objetificação midiática. Dessa forma, a literatura revisada aponta para a urgência de estratégias que promovam uma autoimagem mais positiva, inclusiva e crítica, rompendo com os modelos hegemônicos de beleza e fomentando o bem-estar psicológico das mulheres.
Objetivos
Objetivo Geral
Compreender a repercussão das redes sociais na percepção de mulheres sobre a autoimagem.
Objetivos específicos
- Investigar se as imagens do corpo feminino divulgadas nas redes sociais contribuem para possíveis distorções da autoimagem de mulheres.
- Examinar se a presença de características normativas (magreza, juventude, perfeição estética) em imagens populares nas redes contribui para a insatisfação corporal feminina.
- Avaliar os efeitos da exposição a estímulos midiáticos estéticos sobre a autoimagem e o bem-estar emocional imediato de mulheres participantes.
Método
Tipo de Estudo
Trata-se de uma pesquisa qualitativa de base fenomenológica, fundamentada no método empírico-fenomenológico proposto por Amedeo Giorgi, conforme descrito por Andrade e Holanda (2010). A fenomenologia, enquanto método de investigação, busca compreender a essência das experiências humanas a partir da descrição rigorosa das vivências tal como se apresentam à consciência, suspendo julgamentos e teorias prévias (Holanda, 2006). Ao priorizar o sentido que os fenômenos adquirem na experiência vivida, esse referencial revela-se especialmente rico para investigar os impactos subjetivos da pressão estética, amplificada pelas redes sociais, na autoimagem de mulheres.
A escolha dessa metodologia está ancorada no objetivo de acolher, descrever e compreender o modo como mulheres significam e vivem a própria imagem corporal em um contexto social que normatiza aparências e impõe padrões estéticos hegemônicos. Pretende-se construir uma escuta comprometida com as singularidades de cada trajetória, reconhecendo que a autoimagem se constitui em diálogo entre corpo vivido, cultura, mídia e história pessoal. Essa perspectiva será operada por meio de entrevistas semiestruturadas e individuais, complementadas por estímulos imagéticos e audiovisuais previamente definidos.
Participantes
Participaram da pesquisa quatro mulheres, selecionadas intencionalmente a partir de critérios de diversidade etária e étnico-racial, com o intuito de ampliar as possibilidades compreensivas do fenômeno investigado. A participante 1 era uma mulher branca de 19 anos; a participante 2, uma mulher parda de 30 anos; a participante 3, uma mulher branca de 36 anos; e a participante 4, uma mulher negra de 47 anos. Essa distribuição buscou contemplar diferentes fases do desenvolvimento adulto e suas possíveis influências na construção da autoimagem em contextos digitais. Os critérios de inclusão foram: identificar-se com o gênero feminino; ter idade entre 18 e 50 anos; pertencer a diferentes grupos étnico-raciais, conforme a seleção intencional; utilizar redes sociais digitais com frequência; e consentir com a participação por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (Anexo A).
Instrumentos
Foram utilizados 2 instrumentos (Anexo B) articulados ao longo do encontro com cada participante:
- Entrevista semiestruturada: no primeiro momento, contendo perguntas sobre percepção atual do próprio corpo, experiências com padrões estéticos, sentimentos associados à autoimagem, histórico de uso de redes sociais e percepção crítica sobre o tema. Após a apresentação dos estímulos visuais e audiovisuais, foi utilizada a segunda parte do roteiro de entrevista com perguntas abertas e flexíveis que convidam à descrição da vivência a partir da exposição aos estímulos.
- Estímulos visuais e audiovisuais, compostos por:
- Imagens de mulheres populares nas redes sociais, com alta visibilidade e engajamento, representando padrões estéticos normativos;
- Um trecho (~6 minutos) do filme “A Substância” (Fargeat, 2024)
Procedimentos de coleta
As entrevistas das participantes 1, 2 e 4 ocorreram no formato presencial e a entrevista com a participante 4 ocorreu no formato online, através da plataforma Google Meet, . As entrevistas foram realizadas individualmente, com duração de 50 a 70 minutos e com recurso de gravação (mediante autorização prévia da participante). O processo ocorreu em três momentos:
- Boas-vindas e apresentação do TCLE, garantia de sigilo, voluntariedade e autorização para gravação;
- 1ª parte da entrevista semiestruturada;
- Apresentação dos estímulos (imagem + trecho do filme);
- 2ª parte da entrevista semiestruturada.
- Coleta dos dados sociodemográficos.
Procedimentos de análise
As entrevistas foram gravadas integralmente e, posteriormente, transcritas de forma literal, preservando as expressões originais de cada participante. Em seguida, procedeu-se à leitura detalhada do material, que foi dividido em unidades de significado, de acordo com o método fenomenológico proposto por Amedeo Giorgi descrito por Andrade e Holanda (2010). Cada unidade de sentido recebeu uma interpretação psicológica, de modo a traduzir o conteúdo cotidiano das falas das entrevistadas, evidenciando os significados atrelados à experiência vivida. Após essa etapa, todas as unidades foram quantificadas e convertidas em porcentagens, conforme a frequência com que apareceram nas entrevistas, possibilitando identificar quais significados se mostraram mais recorrentes entre as participantes.
Para a análise dos resultados, utilizou-se a análise fenomenológica, que busca compreender a essência da experiência vivida. Conforme Andrade e Holanda (2010), essa metodologia apresenta-se à psicologia como um instrumento adequado para investigar o mundo vivido pelo sujeito, permitindo compreender o sentido e o significado atribuídos às vivências em determinadas situações, com o objetivo de alcançar a estrutura essencial do fenômeno investigado.
Resultados
Por meio da análise das entrevistas, realizada a partir do método fenomenológico, foi possível identificar 29 unidades de sentido nas quatro entrevistas conduzidas com as participantes da pesquisa. Essas unidades não se manifestam de forma uniforme entre todas as entrevistadas. Algumas delas aparecem de maneira exclusiva em um único discurso, enquanto outras se repetem em duas ou três participantes, revelando diferentes nuances do fenômeno investigado. Conforme descrito na tabela de quantificação, é possível observar quais unidades de sentido emergiram de forma transversal em todas as entrevistas e quais se mostraram específicas a determinadas participantes, refletindo a singularidade e, ao mesmo tempo, a convergência das vivências analisadas.
Tabela 1. Porcentagem das unidades de sentido por participante
| Unidade de sentido | P1 | P2 | P3 | P4 |
|---|---|---|---|---|
| Pressão estética | 10% | 7% | 7% | 4% |
| Comparação social direta | 9% | 8% | 6% | 2% |
| Comparação com si própria (eu do passado) | 3% | 3% | 2% | 4% |
| Influência das redes sociais e filtros | 8% | 7% | 5% | 2% |
| Hipervigilância corporal | 9% | 4% | 2% | 0% |
| Autoimagem oscilante | 4% | 5% | 0% | 3% |
| Aceitação corporal | 4% | 8% | 5% | 8% |
| Autopercepção e autocrítica | 6% | 6% | 5% | 3% |
| Envelhecimento e perda simbólica de valor social | 2% | 2% | 5% | 8% |
| Menopausa e ressignificação de fases | 0% | 0% | 0% | 5% |
| Feminilidade aprendida por modelos culturais | 5% | 3% | 4% | 3% |
| Padrões eurocêntricos de beleza | 5% | 5% | 3% | 5% |
| Racismo e exclusão racial | 0% | 0% | 0% | 8% |
| Representatividade e diversidade | 0% | 4% | 4% | 5% |
| Objetificação e sexualização do corpo | 5% | 4% | 6% | 4% |
| Padrão fitness | 0% | 6% | 5% | 0% |
| Validação masculina e aprovação externa | 4% | 2% | 5% | 3% |
| Aparência vinculada à imagem profissional | 0% | 0% | 6% | 0% |
| Roupa como mediação (vulgarizar ↔ esconder) | 8% | 0% | 2% | 0% |
| Dor física associada a atributos corporais | 5% | 0% | 0% | 0% |
| Feminismo e autonomia | 4% | 4% | 6% | 5% |
| Cabelo natural / corte como rito de libertação | 0% | 0% | 0% | 6% |
| Influência geracional (mãe–filha) | 0% | 0% | 0% | 4% |
| Saúde e funcionalidade corporal | 2% | 7% | 3% | 4% |
| Retraimento digital na vulnerabilidade | 0% | 0% | 4% | 0% |
| Amadurecimento e consciência | 3% | 6% | 5% | 5% |
| Empatia e sororidade | 3% | 3% | 3% | 3% |
| Adultização precoce via estética | 0% | 0% | 3% | 0% |
| Consumo crítico e seletividade de conteúdo | 4% | 6% | 4% | 4% |
Participante 1
A vivência corporal da participante 1, mulher branca de 19 anos, é marcada por um sentimento constante de inadequação e desconforto com o próprio corpo, especialmente em relação ao tamanho dos seios, que a fazem sentir-se simultaneamente exposta e deformada. O corpo é experimentado como algo que não cabe em lugar nenhum: quando tenta se mostrar, teme ser julgada como vulgar; quando se esconde, sente-se gorda e invisível. Essa contradição gera uma sensação permanente de erro e vigilância, em que qualquer roupa, gesto ou postura parecem inadequados. O corpo torna-se, assim, um território de tensão, sustentado por uma percepção de feminilidade aprendida desde cedo a partir de modelos idealizados e inalcançáveis, como as bonecas Barbie e Monster High, que representavam para ela o que era ser bonita, feminina e atraente. Essas imagens infantis funcionaram como primeiras referências de corpo e beleza, criando uma noção rígida e distante de si mesma. As experiências de assédio, as comparações com outras mulheres e a dor física associada aos seios reforçam a ideia de que o corpo é uma presença incômoda e pesada, algo que precisa ser escondido ou controlado para evitar julgamentos.
A influência das referências midiáticas, especialmente das idols de K-pop e das personagens de anime, atravessa de forma profunda a relação da participante com o corpo. As comparações com essas imagens idealizadas alimentam uma autoimagem fragmentada, em que o real nunca é suficiente. Mesmo reconhecendo racionalmente que esses padrões são irreais, ela se sente afetada emocionalmente por eles, vivenciando ansiedade, vergonha e autocrítica constante. Durante a pandemia, as interações virtuais em plataformas como Discord, foram marcadas por comentários cruéis sobre sua aparência, que ampliaram as suas inseguranças com relação a sua imagem corporal. Ao assistir o trecho do filme A Substância, que foi apresentado durante a entrevista, a participante identifica-se com o sofrimento retratado e percebe que a dor relacionada à aparência é uma experiência compartilhada entre mulheres. Esse reconhecimento desperta uma consciência ambígua, ao mesmo tempo dolorosa e confortante, de não estar sozinha em sua luta. Sua experiência revela a vivência de um corpo aprisionado entre o desejo de aceitação e o medo da exposição, em um mundo que a ensina a existir sob o olhar constante do outro.
Após a análise da entrevista, a unidade de sentido mais recorrente na narrativa da participante 1 foi a “pressão estética” (10%), expressando uma vivência de constante insatisfação e cobrança sobre o corpo. Essa pressão emerge na forma como ela percebe os seios grandes como uma fonte de desconforto, associando-os à sensação de parecer “gorda” ou “vulgar”, independentemente da roupa que utiliza. Ao relatar que qualquer peça de roupa a faz sentir-se maior ou “fora do padrão”, a participante evidencia o quanto o olhar social e o julgamento do outro se tornaram referências internas de avaliação. O corpo é vivido, assim, como algo que precisa ser vigiado, contido e ajustado para não ultrapassar os limites do que é considerado “aceitável” dentro dos padrões estéticos hegemônicos.
As unidades “hipervigilância corporal” (9%) e “comparação social direta” (9%) também aparecem com alta frequência, reforçando essa vivência de constante auto-observação e comparação com outras mulheres. A participante relata sentir-se desconfortável quando se vê ao lado de outras pessoas, descrevendo-se como “meio caidinha” diante de corpos que considera mais femininos ou “bonitos”. Ela também menciona momentos em que permanece o dia inteiro se checando — ajustando postura, encolhendo a barriga, controlando os gestos — o que evidencia o quanto seu corpo é vivido sob uma vigilância contínua, quase automática.
Outra dimensão relevante é a “influência das redes sociais e filtros” (8%), que funciona como catalisadora desse ciclo de comparação. A participante menciona como conteúdos digitais reforçam a autocrítica e a insatisfação, levando-a a revisar repetidamente sua aparência antes de sair de casa ou de se expor. Nas redes, o corpo valorizado é o corpo que está dentro do ideal inatingível de magreza, perfeição e simetria. Essa exposição às redes sociais intensifica a autovigilância e a percepção de que há sempre algo a ser corrigido ou melhorado. A partir dessas unidades de sentido, percebe-se que a participante 1 vive o corpo como um espaço público, permanentemente observado e avaliado, em que a feminilidade é medida pelo grau de adequação ao olhar social.
Participante 2
A participante 2, mulher parda de 30 anos, tem sua imagem corporal atravessada por uma busca constante de equilíbrio entre estética e funcionalidade. Embora reconheça que se enquadra dentro do padrão de beleza vigente, percebe que sua relação com o corpo não está livre das influências sociais e das comparações que a cercam. Desde cedo, internalizou ideais de magreza e definição como sinônimo de cuidado e beleza, mas ao longo do tempo desenvolveu uma postura mais crítica e consciente sobre essas influências. A participante compreende que o bem-estar corporal depende também da capacidade de se permitir e de respeitar os próprios limites, reconhecendo que o corpo real é marcado por estrias, celulites e imperfeições que fazem parte da experiência humana. Assim, o corpo é vivido tanto como expressão estética quanto como instrumento para o movimento, o prazer e a realização de atividades que compõem sua vida cotidiana. A funcionalidade aparece como dimensão central da sua aceitação, pois é no corpo ativo e capaz que ela encontra a sensação de autonomia e satisfação.
Com o amadurecimento, a participante passou a adotar um olhar mais seletivo sobre as referências externas e a filtrar aquilo que consome nas redes, buscando conteúdos que dialoguem com sua realidade. Esse movimento de consciência crítica lhe permite transitar da comparação para a inspiração, reconhecendo que o corpo idealizado é, em grande parte, uma construção distante e economicamente inacessível. Ela compreende também que a beleza é uma experiência subjetiva e relacional, que inclui personalidade, proximidade e vínculo, e não apenas aparência física. Ao refletir sobre o filme A Substância, ampliou sua percepção para o tema do envelhecimento, reconhecendo a força dos ideais de juventude e a vulnerabilidade feminina diante deles, ainda que consiga manter um olhar lúcido sobre a influência da indústria estética. Sua experiência revela, portanto, um corpo vivido com consciência e autocrítica: um corpo que ainda é atravessado por ideais sociais, mas que busca se firmar no equilíbrio entre cuidado, funcionalidade e liberdade de ser.
A unidade de sentido mais recorrente na fala da participante 2 é a “aceitação corporal” (8%), que aparece como resultado de um processo de amadurecimento pessoal e consciência sobre as próprias limitações e contextos. Ela demonstra reconhecer que o corpo passa por transformações e que o desejo de se adequar a um padrão estético, embora ainda presente, foi substituído por uma busca mais realista e saudável. A participante fala sobre sentir-se bem com o próprio corpo, ainda que perceba marcas como estrias e celulites, revelando uma convivência mais pacífica com as imperfeições. Ao afirmar que hoje se permite mais e tenta viver “de forma consciente”, ela revela uma mudança de perspectiva: o corpo deixa de ser apenas um objeto de observação e passa a ser um instrumento de vida, vinculado à saúde e à funcionalidade. Essa aceitação surge de um movimento ativo de compreensão e acolhimento de si.
As unidades “saúde e funcionalidade corporal” (7%), “comparação social direta” (8%) e “padrão fitness” (6%) complementam essa vivência, mostrando como o corpo é compreendido a partir de uma relação entre estética e funcionalidade. A participante reconhece que o ideal fitness e as influências externas ainda exercem certo impacto, mas diferencia admiração de comparação, buscando nas redes sociais referências adaptáveis à sua própria realidade. O exercício físico aparece como expressão de cuidado e prazer. Mesmo quando reconhece o desejo de “melhorar algo”, o discurso é permeado por autocrítica equilibrada, sem culpa ou rigidez. Essa relação entre aceitação e aprimoramento expressa um movimento de consciência que desloca o foco da aparência para o bem-estar.
Outra unidade importante é o “amadurecimento e consciência” (6%), que se articula diretamente com o “consumo crítico e seletividade de conteúdo” (6%). A participante demonstra uma compreensão lúcida sobre a diferença entre o real e o idealizado, reconhecendo que muitas comparações partem de contextos irreais e inacessíveis. Ao filtrar o conteúdo que consome e se inspirar apenas em modelos que considera possíveis dentro da própria rotina, ela ressignifica sua relação com o corpo e com a mídia. Essa postura reflexiva revela o amadurecimento emocional e cognitivo de quem compreende que o corpo é plural e que a beleza não se restringe à uniformidade dos padrões. A Participante 2, portanto, vive o corpo como espaço de reconciliação, onde a estética, a funcionalidade e a consciência coexistem de forma mais integrada e autêntica.
Participante 3
A experiência vivida da participante 3, mulher branca de 36 anos, é atravessada por um longo processo de reconstrução da própria imagem, marcado por cobranças familiares e sociais que associam a magreza e o controle corporal à ideia de valor e sucesso. Desde a infância, aprendeu a vigiar o corpo como um dever e, ao longo da vida adulta, essa vigilância se expandiu para o campo profissional, onde percebe que aparência, postura e apresentação pessoal influenciam diretamente na forma como é tratada e reconhecida. O corpo, portanto, é vivido como ferramenta de visibilidade e credibilidade, mas também como fonte constante de cobrança e autocrítica. A participante compreende que, embora os padrões estéticos tenham mudado — passando da magreza extrema para o corpo fitness —, a lógica que os sustenta continua a mesma: o corpo feminino permanece sexualizado e condicionado à validação externa. Esse olhar social, que mede o valor da mulher pela aparência, faz com que a busca por beleza e autocuidado se misture a sentimentos de culpa, comparação e exaustão. O envelhecimento, nesse cenário, surge como um desafio adicional, trazendo à tona a frustração diante das marcas do tempo e o medo da perda de reconhecimento, tanto estético quanto social.
Apesar disso, a participante demonstra um movimento reflexivo e consciente de tentativa de transformação. A terapia e a maturidade emocional a ajudam a reconhecer os limites entre autocuidado e autoexigência, conduzindo-a a uma relação mais compassiva com o próprio corpo. Em vez de perseguir a perfeição, ela busca uma estética que expresse equilíbrio e autenticidade, compreendendo que o bem-estar não está apenas na aparência, mas na coerência entre o que sente e o que vive. O feminismo aparece como um marco que ampliou seu olhar sobre si e sobre as outras mulheres, permitindo questionar padrões e reivindicar o direito de existir para além deles. Sua vivência revela, assim, o dilema contemporâneo de uma mulher que, mesmo consciente das forças sociais que a moldam, ainda negocia diariamente entre o desejo de reconhecimento e a necessidade de liberdade. O corpo, nesse contexto, torna-se tanto palco de cobranças quanto espaço de reconstrução de si — um território em que, apesar das marcas da exigência, germina a possibilidade de uma relação mais gentil, lúcida e humana com a própria imagem.
A unidade de sentido mais recorrente na fala da participante 3 é a “pressão estética” (7%), que se manifesta como uma cobrança constante e multifacetada. A participante demonstra sentir-se atravessada por exigências externas e internas relacionadas à aparência, sobretudo pela necessidade de corresponder a expectativas pessoais e profissionais. Essa cobrança aparece associada ao autocuidado, a magreza e, principalmente, à forma como a aparência se torna critério de reconhecimento. A participante percebe que, socialmente, o corpo magro é visto como símbolo de competência e prestígio, e internaliza parcialmente essa lógica. As unidades “objetificação e sexualização do corpo” (6%) e “aparência vinculada à imagem profissional” (6%) reforçam essa experiência de viver o corpo como instrumento de visibilidade e poder, mas também de vulnerabilidade. A participante relata situações em que sua aparência interfere diretamente no modo como é percebida no ambiente de trabalho, o que a leva a adotar estratégias de apresentação que garantam respeito e autoridade. A necessidade de “estar sempre impecável”, com maquiagem e postura adequadas, traduz o quanto a identidade profissional feminina ainda está atravessada por códigos estéticos e simbólicos que não recaem da mesma forma sobre os homens. Assim, o corpo assume uma função social estratégica: é ao mesmo tempo escudo e vitrine, revelando a tensão entre empoderamento e submissão às normas de gênero.
As unidades “feminismo e autonomia” (6%) e “amadurecimento e consciência” (5%) também se destacam, representando o movimento de resistência e reconstrução subjetiva que atravessa a experiência da participante. Ela demonstra consciência crítica sobre as estruturas que impõem padrões de beleza e comportamento, reconhecendo que o feminismo e o autoconhecimento lhe permitiram ressignificar o modo como percebe o próprio corpo. O amadurecimento aparece como ampliação de consciência — um processo que envolve reconhecer as próprias limitações, compreender o impacto do olhar social e, ainda assim, recuperar o direito de ocupar espaços com autenticidade.
Participante 4
A experiência vivida da participante 4, mulher negra de 47 anos, revela uma trajetória de reconstrução identitária profundamente marcada pelo racismo, pela ausência de representatividade e pela busca por pertencimento. Desde a infância, o corpo foi percebido como inadequado frente aos padrões eurocêntricos de beleza — o cabelo crespo, a pele negra e os traços fora do “ideal” eram alvos de desvalorização, o que gerou uma sensação persistente de não lugar. Essa exclusão simbólica atravessou a infância e a adolescência, fazendo com que o corpo fosse inicialmente vivido como algo a ser corrigido e adaptado. A ausência de referências positivas, como bonecas, artistas ou mulheres negras na mídia, alimentou o sentimento de invisibilidade e a necessidade de conformar-se ao modelo branco de feminilidade. O ato de alisar o cabelo e evitar o corte representava, então, uma tentativa de sobreviver dentro de um mundo que negava sua imagem. Somente com o passar dos anos, e especialmente após a influência da filha e do contato com novos discursos sobre negritude e empoderamento, a participante iniciou um processo de libertação, que culminou na decisão de abandonar os alisamentos e assumir o cabelo natural. Esse gesto simbolizou mais do que uma mudança estética: foi a concretização na imagem corporal da aceitação de si, um marco de autonomia e orgulho identitário.
Ao narrar sua vivência atual, a participante expressa uma relação madura e tranquila com o corpo e com o envelhecimento. A idade não é vista como perda, mas como conquista. O envelhecer é compreendido como continuidade, como fases da Lua, cada uma com sua beleza própria. Essa consciência não a distancia das dores vividas, mas as transforma em aprendizado. Ela reconhece que a aceitação é um caminho longo e por vezes doloroso, construído no embate entre o olhar social e o olhar de si mesma. O corpo, antes um território de exclusão, torna-se espaço de pertencimento e de luz. Ao refletir sobre as redes sociais e os padrões contemporâneos, mostra-se crítica à cultura da aparência e valoriza a singularidade como fonte autêntica de beleza. O feminismo, por sua vez, é reconhecido como movimento que lhe deu voz e liberdade para existir em seus próprios termos, sem negar as diferenças entre homens e mulheres. Sua narrativa culmina em um sentimento de paz e dignidade: a consciência de ser uma mulher que aprendeu a se reconhecer, a se ver e a se amar, não apesar das marcas da vida, mas por causa delas. O corpo, agora, é símbolo de resistência, maturidade e reconciliação: o testemunho vivo de uma beleza que se refaz em liberdade.
As unidades de sentido predominantes na fala da participante 4 foram “aceitação corporal” (8%), “envelhecimento e perda simbólica de valor social” (8%) e “racismo e exclusão racial” (8%). Essas categorias revelam um percurso de reconstrução identitária e libertação de padrões estéticos que a acompanharam desde a infância. O corpo, antes vivido como espaço de dor e inadequação, passa a ser compreendido como território de dignidade, orgulho e pertencimento. A aceitação corporal aparece como consequência de um longo processo de amadurecimento e autoconhecimento, no qual a participante aprende a valorizar sua aparência real e a singularidade de seus traços. Para a participante 4, o envelhecimento não é significado como perda ou decadência, mas como fonte de sabedoria, maturidade e liberdade. Ainda assim, a participante reconhece que socialmente o envelhecer é associado à perda de valor e à invisibilidade feminina, o que evidencia uma discrepância entre sua vivência pessoal e o olhar social dominante. Essa consciência crítica se entrelaça com a experiência do racismo, que, durante muitos anos, sustentou a sensação de não pertencimento. O rompimento com os ideais eurocêntricos de beleza e a adoção do cabelo natural marcam o início de uma nova forma de existir em si e para si.
A unidade “cabelo natural e corte como rito de libertação” (6%) complementa esse movimento, simbolizando a reconciliação entre identidade e corpo. O ato de abandonar o alisamento e assumir o cabelo afro é narrado como uma libertação concreta. Essa decisão não é apenas estética, mas profundamente política e afetiva: reflete o momento em que a participante passa a se enxergar com amor e legitimidade. Essa transformação também é acompanhada pelas unidades “amadurecimento e consciência” (5%) e “feminismo e autonomia” (5%), que expressam uma postura reflexiva e crítica diante dos padrões sociais. Ela reconhece que as pressões impostas às mulheres, especialmente às mulheres negras e maduras, são estruturais, mas adota uma visão mais generosa e consciente sobre o próprio corpo, compreendendo-o como expressão de trajetória e força.
De modo geral, as unidades de sentido identificadas evidenciam a complexidade das vivências corporais femininas no contexto contemporâneo, revelando tanto as tensões associadas aos padrões estéticos e sociais quanto os movimentos de aceitação, consciência e ressignificação do próprio corpo. Observa-se que, embora cada participante apresente trajetórias singulares, emergem pontos de convergência que permitem compreender a experiência do corpo como um espaço de construção de identidade, de resistência e de transformação subjetiva. A partir desses resultados, a próxima seção se dedica à discussão dos achados, articulando as unidades de sentido e suas implicações à luz do referencial teórico adotado.
Discussão
A partir da análise fenomenológica das entrevistas, foi possível identificar um conjunto de unidades de sentido convergentes, ou seja, temas que emergiram no discurso de todas as participantes, ainda que expressos de formas singulares. A partir dessas unidades convergentes, elaboraram-se três grandes categorias que reúnem sentidos próximos e complementares: (i) Vetores socioculturais que moldam a autoimagem, que abrange os “padrões eurocêntricos de beleza”, a “feminilidade aprendida por modelos culturais” e a “influência das redes sociais”; (ii) Dinâmicas de comparação e pressão, composta pelas unidades de “pressão estética” e “comparação social direta”; e (iii) Estratégias de regulação e resistência, que inclui a “aceitação corporal”, o “feminismo e autonomia”, o “amadurecimento e consciência”, a “empatia e sororidade” e o “consumo crítico e seletividade de conteúdo”. Essa organização permitiu compreender de maneira integrada os fatores que influenciam a construção da autoimagem feminina, bem como os recursos subjetivos mobilizados por essas mulheres para resistir e ressignificar seus corpos diante das pressões socioculturais contemporâneas.
I. Vetores socioculturais que moldam a autoimagem
Nesta categoria, observa-se que a construção da autoimagem das participantes é atravessada por modelos culturais e midiáticos de feminilidade, que desde cedo estabelecem o que é considerado belo e aceitável. A participante 1 relata como esses padrões foram incorporados à sua percepção corporal:
Eu cresci vendo K-pop. Eu cresci brincando de Monster High e K-pop [...] E aí é meio que assim, as meninas têm 1,70 e pesam 40 quilos. Então meio que foi um tipo de padrão de beleza que se instaurou assim na minha cabeça. Eu sei, hoje em dia eu sei que não é saudável, que é mó nada a ver isso. Só que ainda tenho um subconsciente de achar que meu corpo é meio feio por não ser nada a ver com aquilo. (P1)
A fala reflete o processo de internalização de ideais estéticos midiáticos, em que o corpo se torna parâmetro de comparação e julgamento. Esse fenômeno vai ao encontro do que afirma Dantas (2011), ao destacar que o culto contemporâneo ao corpo transforma a aparência em sinônimo de valor pessoal, associando beleza, juventude e sucesso a uma lógica de aperfeiçoamento constante.
Nessa perspectiva, o corpo da mulher é convertido em produto, sustentado pela repetição de imagens idealizadas e inatingíveis. Em outra fala, a participante 1 complementa: Acho que desde criança, né? Tipo, Barbie. Não me sinto... Eu não sinto que o meu corpo é feminino. Aqui, evidencia-se o papel dos modelos culturais de feminilidade na construção da autoimagem, como aponta Novaes (2011) ao discutir a “tirania da aparência” e o vínculo entre feminilidade e aceitação social. O sentimento de “não ter um corpo feminino” surge como efeito direto da discrepância entre o corpo vivido e o corpo idealizado, refletindo o quanto o olhar cultural sobre a mulher molda sua relação consigo mesma.
Assim, o discurso da participante 1 mostra que o corpo é vivido como território simbólico, em que normas de beleza e feminilidade são aprendidas, reproduzidas e, por vezes, questionadas, mas permanecem profundamente enraizadas na experiência subjetiva.
Complementarmente, ao discutir o padrão de beleza vigente, a participante 2 identifica de forma clara o predomínio de um ideal eurocêntrico que orienta a percepção coletiva de beleza:
Eurocêntrico. Sim, assim, 100%. Pele branca, corpo magro, olhos claros. Então, às vezes, existe também muita valorização, sei lá, de uma mulher morena, de um homem moreno. Mas de forma geral, assim, o que eu percebo que mais chama atenção e arranca elogios e admiração é sempre isso, assim. E de alguma forma, dá pra ver, né? Muitas pessoas buscando isso, sei lá, mulheres que ficam descolorindo o cabelo, porque existe esse padrão de você ser loiro, de alguma forma. (P2)
Essa fala revela como a estética eurocêntrica permanece como referência dominante para a legitimação da beleza feminina. Tal percepção coincide com o que afirmam Del Priore (1997) e Novaes (2011), ao apontarem que o corpo da mulher brasileira foi historicamente atravessado por ideais de branquitude, magreza e juventude, que operam como dispositivos de exclusão racial e simbólica. A valorização de traços europeus evidencia que o corpo feminino ainda é interpretado sob lógicas coloniais e patriarcais, que hierarquizam aparências e reforçam o apagamento das diversidades corporais e étnicas.
Dessa forma, o discurso da participante demonstra que o padrão de beleza eurocêntrico atua como vetor sociocultural que define o que é reconhecido como belo, perpetuando um imaginário de superioridade estética branca e impondo às mulheres uma constante pressão para se adequar a esse ideal.
A fala da participante 4 amplia a discussão sobre a feminilidade aprendida por modelos culturais e os padrões eurocêntricos de beleza, evidenciando como o processo de socialização estética se inicia ainda na infância, por meio da mídia e da ausência de representatividade racial. Ela relata:
Quando eu era criança, eu gostava muito de assistir a Xuxa, né? Então, tinha as paquitas, aquelas coisas lá, então assim, na fase da adolescência, eu cheguei às vezes a me comparar, né? Mas tem a diferença, tom de pele, cabelo, né? E tipo assim, eu perguntava porque naquele programa, na minha época, não tinha nem uma paquita negra. Mas nessa época não era falado igual é falado hoje, né? Eu não entendia isso, então era bem difícil você não se ver em lugar nenhum, ninguém te representando em lugar nenhum. (P4)
Essa ausência de representação evidencia a hegemonia dos ideais eurocêntricos de beleza, em que o corpo branco, magro, de cabelos lisos e loiros é socialmente instituído como o padrão desejável e legitimado. Tal construção cultural, como destaca Novaes (2011), atua como um mecanismo de exclusão simbólica, promovendo sofrimento psíquico e sentimentos de inadequação em mulheres que não correspondem a esse ideal. A fala da participante revela os efeitos subjetivos dessa invisibilidade midiática, que, segundo Hooks (2019), constitui uma das formas mais sutis e persistentes de opressão racial e de gênero, uma vez que nega às mulheres negras o direito de se reconhecerem como belas, desejáveis e plenamente humanas.
Dessa maneira, sua narrativa evidencia como a feminilidade foi aprendida a partir de modelos culturais brancos e homogêneos, que moldaram o imaginário social sobre o que é ser mulher e o que é ser bela. Tal como aponta Del Priore (1997), o corpo feminino no Brasil foi historicamente atravessado por relações de poder racializadas, em que a mulher negra foi relegada à margem da visibilidade e da valorização estética. A participante, ao relembrar sua infância e o impacto da ausência de representatividade, revela não apenas um trauma coletivo de exclusão, mas também o início de um processo de conscientização — o reconhecimento de que o olhar midiático sobre a beleza não é neutro, mas um dispositivo político que produz desigualdade simbólica e sofrimento subjetivo.
Ainda dentro da categoria I, a influência das redes sociais surge como um dos principais elementos de manutenção e difusão dos padrões corporais hegemônicos. As falas das participantes indicam que o ambiente digital se tornou um espaço de comparação constante e de legitimação de um único modelo de beleza, frequentemente mediado por recursos tecnológicos e cirurgias estéticas. A participante 3 descreve de forma direta como percebe essa homogeneização nas plataformas digitais:
Aí, olha, atualmente é silicone, barriga com lipo, silicone na bunda ou gordura localizada e preenchimento labial. É basicamente isso que é o padrão que eu vejo aí no Brasil.[...] e pelas redes sociais, que é o que eu consumo mais, é praticamente uma pessoa que foi para o médico e fez cirurgia. Porque não tem mais uma beleza natural.[...] todo mundo tá com a mesma cara. (P3)
A fala ilustra o que Azevedo e Mauro (2018) denominam de “violência simbólica midiática”, em que as redes sociais perpetuam estereótipos de gênero e impõem um padrão estético normativo que reduz a mulher à aparência. Nessa lógica, o corpo passa a ser um produto da visibilidade, submetido à comparação e ao consumo. O relato evidencia a perda da singularidade e o apagamento da diversidade corporal, fenômeno que Frois, Moreira e Stengel (2011) também associam à circulação massiva de imagens editadas e irreais, que transformam a beleza em um código de pertencimento social.
A pressão gerada por essas representações é igualmente perceptível na experiência da participante 2, que relata o impacto emocional do consumo constante de conteúdos que exibem vidas e corpos idealizados:
Cara, tinha uma época que eu ficava bem mal, assim... De não ter uma vida como aquela... Não alcançar aquelas coisas... Não ser daquele jeito... Porque consumindo aquilo tudo, parecia que... Nossa, é muito fácil, né? É muito natural. Como que eu não consigo viver assim? (P2)
Essa fala dialoga com Matos e Cruz (2024), ao apontarem que o uso intensivo de redes como o Instagram e o TikTok intensifica comparações corporais e sentimentos de inadequação. A exposição contínua a imagens idealizadas produz uma percepção distorcida da realidade, gerando frustração e vergonha quando o corpo real não corresponde ao corpo performado digitalmente.
Na mesma direção, a participante 2 reforça como a representação dos corpos femininos nas redes mantém o ideal magro e inalcançável, ampliando a cobrança estética: É uma cobrança, assim, muito, muito, muito grande. Eu percebo que existe eternamente, assim, esse padrão de magreza que, às vezes, muitas vezes, não é possível pro biotipo da maioria das pessoas, sabe? E que tenta se buscar[...] - P2. Essa percepção se articula com o que afirmam Novaes (2011) e Zanello et al. (2015), ao discutirem como o corpo feminino é submetido a uma vigilância constante, tanto externa quanto internalizada. Nas redes, o olhar do outro é incorporado como autocobrança, e a mulher aprende a se ver sendo vista.
Por fim, a fala da participante 1 sobre o trecho do filme A Substância, evidencia de modo sensível os efeitos cotidianos dessa lógica de exposição e comparação:
Eu me identifico bastante por conta da minha ansiedade pra sair de casa e tipo assim, pô, eu tenho 19 anos de idade, imagino como é que vai ser quando eu tiver mais velha. Meu quarto fica exatamente daquele jeito quando eu tô me arrumando e é mais um desespero, ficar no espelho checando todas as vezes. E aí você entra em alguma rede social pra esperar pra sair de casa e aí você vê alguma coisa que te faz comparar e aí você vai lá checar de novo se você tá ok, sabe? Então, acontece muito comigo. (P1)
A experiência descrita ilustra o que Meneses e Sarriera (2005) definem como efeito psicossocial das redes na constituição da identidade: as plataformas digitais instauram normas de reconhecimento e pertencimento que passam a orientar a forma como o sujeito se percebe.
Em conjunto, as falas revelam que as redes sociais operam como dispositivos de poder e visibilidade, sustentando padrões estéticos excludentes e produzindo formas sutis de sofrimento psíquico. No entanto, elas também se configuram como espaço de consciência e crítica, já que as participantes reconhecem a artificialidade dessas imagens e refletem sobre os efeitos que produzem, abrindo espaço para novas formas de percepção e resistência ao olhar normativo.
II. Dinâmicas de comparação e pressão
Nas narrativas das participantes, emerge um padrão de constante comparação e pressão estética que atravessa diferentes fases da vida e molda profundamente a forma como as mulheres se percebem e se relacionam com o próprio corpo. A comparação com outras mulheres, com imagens midiáticas ou com versões idealizadas de si mesmas aparece como um movimento quase automático, sustentado por normas culturais e estéticas que definem o que é considerado belo, aceitável ou feminino. Essa dinâmica revela a internalização de um olhar avaliativo e hierarquizador, que transforma o corpo em um campo de vigilância e aperfeiçoamento contínuo.
Na fala da participante 1, a comparação com outras mulheres aparece como uma experiência cotidiana que gera tristeza e sensação de inadequação:
Quando eu me comparo, eu só fico triste, mas eu esqueço depois. Mas eu fico bem triste. E tem um negócio que é tipo assim... Os meus problemas são problemas que quando eu falo para as pessoas elas ficam tipo, nossa, mas como é que você sente problema com isso? (P1)
A fala expressa o sofrimento silencioso decorrente da comparação, especialmente quando a dor é deslegitimada socialmente (“como é que você sente problema com isso?”). Essa negação da experiência subjetiva é o que Rogers (1977) denomina incongruência — o distanciamento entre o self real e o self ideal, amplificado pela falta de aceitação do meio. Ao invalidar o sentimento da participante, o entorno reforça a percepção de que o incômodo com o corpo é um problema menor ou irracional, gerando solidão emocional e autocrítica.
Em outro momento, a comparação assume uma dimensão corporal explícita: Quando eu tô no banheiro lavando a mão e aí, tipo, tem uma guria do meu lado lavando a mão também, aí eu fico percebendo como, tipo, ela é mais alta, o corpo dela é mais bonito e ela é mais feminina que eu. - P1. Aqui, o corpo do outro funciona como espelho e régua, reproduzindo o que Berger (1980) descreve como o olhar internalizado — o ato de se observar sendo observada, medindo-se sempre em relação a um padrão externo. A comparação com a outra mulher, revela a naturalização do julgamento estético e a forma como a feminilidade é percebida como algo visível e comparável. O corpo deixa de ser vivido para ser avaliado.
Essa autovigilância se estende ao cotidiano da participante, transformando-se em um hábito constante: Eu saio de casa, eu fico extremamente preocupada 24 horas se eu tô encolhendo a barriga o suficiente, se eu tô com a postura certa, se eu tô com a roupa direita. Tipo assim, eu passo o dia inteiro... Todos os períodos que eu passo, eu me checo, assim, quando eu tô na rua. - P1. A necessidade de controle corporal evidencia o que Foucault (1996) descreve como o corpo disciplinado — um corpo moldado pelos dispositivos sociais que o fazem obedecer à norma estética e moral. Essa vigilância constante demonstra que a pressão estética não é apenas uma expectativa externa, mas um controle internalizado, no qual a mulher se torna simultaneamente sujeito e objeto da norma.
A participante 2 reforça essa dimensão da pressão ao reconhecer que, mesmo consciente da influência dos padrões externos, continua se sentindo compelida a atender a eles:
Hoje em dia, eu tenho objetivos estéticos, assim, mas muito influenciado pelos padrões externos, assim, reconheço, de querer ter um corpo definido, um corpo magro e eu acredito que eu me enquadro nesse padrão, sabe? E eu busco de forma ativa também permanecer nesse local, sabe? Eu me sinto bem, mas eu sempre tô assim, putz, não tem que melhorar isso aqui. Ah não, mas se eu não tivesse isso, ai eu queria fazer esse ajuste, sei lá, essa barriguinha… (P2)
Há aqui uma consciência ambivalente: ela sabe da influência social, mas sente a necessidade de manter-se dentro do padrão. Isso reflete o processo descrito por Frois, Moreira e Stengel (2011), em que a exposição contínua a corpos idealizados cria uma tensão entre o corpo vivido e o corpo ideal, gerando um ciclo de autocrítica constante mesmo entre mulheres que se percebem próximas do padrão.
Essa tensão reaparece quando a participante reconhece a dificuldade de aceitar imperfeições:
Ainda assim, eu me sinto bem no meu corpo, mas ainda fico nessa, tipo, procurando, ou encontrando, sem querer, marcas que embora eu saiba que fazem parte do corpo normal, sabe? De um corpo real, mas ainda fica... existe tanta possibilidade, tanto procedimento estético [...] e tantos outros corpos, principalmente virtualmente, que eu me comparo, que aí eu fico tipo, não, então dá pra melhorar. (P2)
A multiplicação de imagens “aperfeiçoadas” nas redes reforça o sentimento de insuficiência e a percepção de que o corpo é um projeto inacabado. A comparação deixa de ser episódica para se tornar modo de existência.
A participante 3 demonstra como essa lógica da cobrança estética é incorporada desde a infância: Sempre tive essa cobrança [...] ser magra, então eu sempre tive controle de dieta desde que eu me lembre, desde os meus 10 anos, sempre ali controlando o peso[...] - P3. Essa fala ilustra o processo de aprendizagem precoce da vigilância corporal. O controle do peso, introduzido na infância, expressa a normatização social do corpo feminino, como observam Del Priore (1997) e Novaes (2011). O corpo da mulher, desde cedo, é ensinado a se conformar a um ideal de magreza e docilidade, o que perpetua a ideia de que ser aceita depende de caber em uma forma específica.
Em outro momento, a mesma participante revela o sofrimento psíquico associado a esse controle incessante:
O tempo inteiro. O tempo inteiro, o tempo inteiro eu penso no meu corpo. [...] É uma luta, é o tempo inteiro [...] acordo pensando nisso, me olho no espelho pensando nisso, é constante. É, e assim, por mais que a gente faça muita, né, tenta ter esse autoconhecimento, a gente acaba não conseguindo sair dessa prisão, você consegue lidar com a prisão e aprende a criar meios, mas sair dela, não sei, eu acho que só nascendo de novo. (P3)
A fala traduz o aprisionamento subjetivo causado pela autoexigência estética. O corpo torna-se prisão e foco contínuo de tensão. Zanello et al. (2015) explicam que a pressão estética, ao ser naturalizada, converte-se em autovigilância internalizada: as mulheres passam a se policiar sem necessidade de imposição direta, reproduzindo o olhar social dentro de si mesmas.
A participante 4, por sua vez, traz à tona a dimensão racial da comparação e da pressão estética:
Na sociedade é colocado que uma mulher ela só é bonita se ela tiver um cabelo liso, grande, aquela coisa toda, né? [...] e eu sou negra, então meu cabelo é crespo [...] Então, assim, isso é muito, muito difícil, né? Eu cheguei a alisar cabelo, né? Eu não conseguia cortar cabelo por causa disso. [...] (P4)
Essa fala amplia o entendimento da pressão estética ao incluir o atravessamento racial. A participante revela a força dos padrões eurocêntricos de beleza, que impõem o cabelo liso e o tom de pele claro como ideais. Hooks (2019) argumenta que essa colonização estética cria um modelo de feminilidade branca que relega o corpo negro à margem, produzindo sentimento de não pertencimento e exigindo da mulher negra um esforço de adequação e apagamento de traços identitários.
As dinâmicas de comparação e pressão revelam um ciclo de autovigilância, insegurança e controle internalizado, no qual as mulheres medem o próprio valor com base em padrões estéticos impostos e reforçados desde cedo. A comparação direta — seja com outras mulheres, com imagens virtuais ou com modelos de feminilidade — sustenta um sistema de poder que transforma o corpo em objeto de aperfeiçoamento contínuo. Mesmo entre aquelas que reconhecem criticamente esses padrões, a pressão estética permanece como herança simbólica do olhar social. Assim, as falas expõem como a comparação e a pressão são dimensões estruturantes da experiência feminina contemporânea, atravessando o corpo como campo de disputa entre o ideal normativo e a busca por autenticidade.
III. Estratégias de regulação e resistência
Nas falas das participantes, emergem movimentos de enfrentamento e ressignificação frente às pressões estéticas e sociais. Ainda que submetidas a padrões normativos e discursos que impõem um ideal de corpo e feminilidade, as mulheres entrevistadas demonstram capacidade de reflexão, autorregulação emocional e busca de autonomia sobre a própria imagem. Essas estratégias variam entre a aceitação corporal, a consciência crítica sobre as influências externas, a valorização do amadurecimento e o exercício da sororidade e do consumo consciente. Tais formas de resistência configuram atos de liberdade diante das normas que insistem em colonizar o corpo feminino e seus modos de existir.
A participante 4 expressa uma postura de aceitação e amadurecimento ao reconfigurar o envelhecimento como um processo natural e enriquecedor: Porque também com a idade, as pessoas têm muito medo de envelhecer. A gente não tem que ter medo de envelhecer, porque envelhecer traz sabedoria pra gente […] A gente tem que procurar envelhecer bem. - P4. Essa fala contrapõe o culto contemporâneo à juventude, identificado por Dantas (2011) como um dos pilares do imperativo estético moderno. A participante ressignifica o envelhecimento não como perda de valor, mas como ganho de experiência e sabedoria, movimento que expressa uma resistência à lógica de descarte feminino discutida por Hooks (2019), segundo a qual a mulher é ensinada a temer o tempo e a buscar eternamente uma aparência jovem.
Essa mesma perspectiva aparece quando ela afirma: Eu tô envelhecendo. Quando eu era mais jovem, eu tinha uma beleza. Hoje eu tenho outra beleza. E assim por diante. - P4. Aqui, o corpo deixa de ser objeto de comparação com versões passadas de si mesma para ser reconhecido como processo. Trata-se de uma ampliação de consciência que ecoa a noção de awareness, em Polster e Polster (2001), entendida como a aceitação da experiência presente sem negação da mudança. A beleza, antes medida por critérios externos, passa a ser vivida como expressão singular de um percurso de vida.
A mesma participante reforça um discurso de autonomia e autoafirmação: Uma coisa que a gente tem que aprender desde cedo é agradar a gente. […] Primeiramente você, depois você e depois você. É isso que a gente tem que aprender. - P4. O gesto de colocar-se como prioridade rompe com a lógica patriarcal de servir e agradar, que Hooks (2019) identifica como um ato político e de libertação feminina, deslocando o foco da validação externa para o autocuidado e a autovalorização.
Essa atitude também aparece na fala: A partir do momento que você não quer mais estar modificando certas coisas em você, deixar ser o natural, então você já tá se aceitando.- P4. Aqui, o “deixar ser” traduz um reencontro com o corpo vivido (Leib) em oposição ao corpo objeto (Körper), como propõe Merleau-Ponty (1994). A aceitação do corpo natural, sem intervenções para se adequar ao padrão, marca a reconexão entre corpo e subjetividade, rompendo com a alienação do corpo como imagem.
A participante 2, por sua vez, revela um processo de amadurecimento e consciência crítica sobre a influência dos padrões:
Hoje eu consigo ter essa consciência , já tiveram momentos em que eu tava me sentindo muito mal, caramba, eu não tô conseguindo alcançar esse corpo e até cair a ficha, tipo assim, o tanto de coisa que essa pessoa faz, a disponibilidade de tempo que ela tem, o acesso a procedimentos que ela tem, isso não é real pra mim. (P2)
Essa fala expressa o reconhecimento de que o padrão é uma construção social e inatingível, e que a comparação é injusta. A participante mostra um deslocamento do olhar acrítico para uma postura reflexiva, movimento que Rogers (1977) descreve como congruência, quando o sujeito passa a alinhar sua percepção de si à sua experiência real, e não mais a um ideal imposto.
A dimensão política dessa consciência aparece quando a mesma participante afirma: Nossa, muito. Total. Eu acho que proporcionou muita libertação, sabe? […] Eu percebo que existe muita relação com o que o feminismo proporcionou de conquista de espaço e de liberdade de pensamento para as mulheres.- P2. O feminismo, aqui, é vivenciado como campo de liberdade subjetiva e de reconstrução da autoimagem. Hooks (2019) ressalta que o pensamento feminista promove uma ética do amor-próprio e da autonomia, rompendo com a lógica patriarcal que reduz o corpo da mulher ao olhar do outro. A participante reconhece essa herança libertadora em si e nas mulheres ao seu redor, marcando uma transição da submissão à autonomia.
Em outra fala, ela demonstra uma prática concreta de resistência cotidiana ao adotar um consumo mais consciente das mídias: Hoje eu filtro muito, muito, muito o que eu vou consumir […] eu vejo se o que aquela pessoa posta faz sentido pra mim e se é adaptável de alguma forma pra minha realidade. - P2. A seletividade do conteúdo reflete o consumo crítico apontado por Meneses e Sarriera (2005) como forma de autorregulação frente às dinâmicas de reconhecimento nas redes. Ao filtrar o que consome, a participante evita a comparação e estabelece fronteiras de contato mais saudáveis com as imagens sociais.
A participante 1, ao comentar o filme A Substância, reconhece a dimensão coletiva do sofrimento estético feminino: É meio angustiante, né? Uma coisa que eu acho que 90% das mulheres se identificam […] é realmente uma coisa que a gente passa pelo menos uma vez na vida.- P1. Essa fala traz a consciência de que o sofrimento não é individual, mas socialmente compartilhado. Trata-se de um movimento de empatia e sororidade, no qual a participante reconhece o sofrimento comum às mulheres, evidenciando o que Zanello et al. (2015) descrevem como o caráter coletivo e generificado do sofrimento psíquico feminino. A identificação entre mulheres torna-se, assim, uma via de resistência e acolhimento.
Já a participante 3 demonstra o esforço ativo de regulação emocional e crítica diante da autocrítica corporal:
Tanto quando eu me olho no espelho, é uma cobrança muito grande. [...] a primeira perspectiva, né, que já vem dessa forma, esse pensamento negativo, não me aprovando […] aí eu tento reformular tudo aquilo que a gente tem aprendido há anos, que não, calma aí, enxergue o atual, o que tá acontecendo na sua vida atualmente. (P3)
O exercício de “reformular” o pensamento automático negativo indica o uso de estratégias de autorregulação e consciência, próximas do conceito de awareness da Gestalt-terapia (Polster & Polster, 2001). Essa prática de se reposicionar diante de pensamentos herdados da pressão estética revela a vontade e a possibilidade de interromper o ciclo de autocobrança.
Por fim, a participante 3 retoma a dimensão histórica e política do feminismo, reconhecendo a importância das lutas anteriores para que hoje as mulheres possam reivindicar autonomia sobre seus corpos:
O feminismo, as coisas que as mulheres passaram, até mesmo antes da minha geração, foi extremamente necessário pra gente conseguir o que tem agora. Tanto a nossa voz, por mais que a gente tenha que lutar, mas a nossa voz, a nossa postura, e a gente falar, não, o meu corpo não é público, né, isso então foi por conta delas. (P3)
A fala evidencia a consciência de continuidade geracional na luta feminista, reconhecendo que a liberdade corporal atual é fruto de resistências históricas. Essa percepção reflete o que Hooks (2019) descreve como a dimensão política do corpo feminino — um território de disputa e também de libertação. Ao afirmar que “o corpo não é público”, a participante inscreve-se no movimento de reapropriação do corpo como espaço de autonomia e subjetividade, em oposição à lógica patriarcal que o transforma em objeto de controle. Além disso, essa postura dialoga com a crítica de Almeida (2014), que aponta o corpo da mulher como dispositivo de poder e violência de gênero: reconhecer o corpo como próprio e não público é um gesto de resistência simbólica e política frente à história de objetificação e silenciamento das mulheres.
As estratégias de regulação e resistência revelam o potencial transformador da consciência crítica e da autonomia feminina. A aceitação do corpo, o consumo consciente e a valorização do envelhecimento surgem como formas de romper com a lógica da perfeição e de reencontrar o corpo como experiência vivida, e não como objeto de avaliação. A presença do feminismo e da sororidade nas falas mostra que, ao reconhecerem a dimensão coletiva do sofrimento estético, as mulheres também encontram força na partilha e no acolhimento. Assim, a resistência não se dá apenas na recusa aos padrões, mas na construção de novas formas de existir — mais autênticas, conscientes e solidárias.
Além das grandes categorias com as unidades convergentes, a análise também evidenciou unidades de sentido divergentes, ou seja, experiências que se mostraram específicas de determinadas participantes, mas que oferecem contribuições significativas para a compreensão do fenômeno. Entre essas, foram selecionadas três para discussão mais aprofundada: o “racismo e exclusão racial”, presente no relato da participante 4; a “aparência vinculada à imagem profissional”, observada na participante 3; e a “dor física associada a atributos corporais”, evidenciada na participante 1. Essas unidades, embora singulares, revelam nuances relevantes da relação entre corpo, identidade e contexto social, ampliando a compreensão das múltiplas formas de vivenciar e significar a autoimagem no mundo contemporâneo.
A unidade de sentido “racismo e exclusão racial” diz respeito à vivência do racismo estrutural como um fator formador da autoimagem e da feminilidade. As falas da participante revelam um percurso marcado pela ausência de representatividade, pela dor do não pertencimento e pelo processo gradual de reconstrução da própria identidade negra e feminina. O racismo é aqui compreendido não apenas como um evento externo, mas como uma força simbólica que atravessa a subjetividade e molda o modo como o sujeito percebe e habita o próprio corpo.
Essa pressão [...] ela veio pra mim de fora. Porque tipo assim, né, quando você tem um cabelo afro, é bombril, é pixaim, é bucha, vassoura, né, nunca é falado que o cabelo afro é bonito [...] Na minha época, eu tenho 47 anos, na minha época não existia isso, né. Todo mundo com cabelo liso, perfeito, maravilhoso, né? Então, isso é bem complicado pra uma criança [...] porque tem um padrão que é colocado. -P4.
A fala ilustra a violência simbólica que marca a experiência negra em uma sociedade pautada por padrões eurocêntricos de beleza, que naturalizam a branquitude como modelo universal de estética. Novaes (2011) destaca que a exclusão estética é uma forma contemporânea de opressão que hierarquiza os corpos, tornando a negritude alvo de desvalorização e vergonha internalizada. O corpo negro feminino, nesse contexto, é duplamente atravessado pela racialização e pela normatização de gênero, o que reforça uma estrutura de poder que define quem pode ou não ser considerado belo e digno de visibilidade.
“Você acaba ficando triste [...] Porque, tipo assim, nossa, eu amava a Xuxa. Amava... Acordava cedo pra ver o programa dela, eu gostava. Mas, assim, não via nada, nem as crianças que estavam na plateia, lá no auditório. Com ela, nessa época, não mostrava crianças negras, né? Então, assim, é muito difícil você se olhar no espelho, olhar numa TV, ver imagens, essas coisas, e não ver ninguém que tem pelo menos um traço parecido um pouco com o seu, né?-P4.
A ausência de representatividade midiática, especialmente na infância, opera como um processo de apagamento simbólico. Essa exclusão, como observa Hooks (2019), faz com que meninas negras cresçam sem referências de beleza que as contemplem, internalizando a ideia de que sua aparência é desviante. A participante descreve o efeito dessa invisibilidade, “não se ver em lugar nenhum”, que traduz uma ferida identitária profunda, produzida pela hegemonia branca nas imagens e narrativas sociais.
Depois que a minha filha começou a estudar na UnB [...] ela me incentivou muito a cortar cabelo [...] a ser eu [...] Falar assim, não, eu sou linda, eu sou maravilhosa [...] Hoje acontece de eu estar trabalhando num local e ter só eu lá, negra [...] Antigamente eu ficava muito triste com isso, mas hoje não me afeta mais, não [...] são fases na vida que a gente tem que se libertando [...] e aprendendo a se dar valor. -P4.
Essa fala revela um movimento de resistência e reconstrução identitária sustentado por referências coletivas e intergeracionais. O incentivo vindo da filha simboliza a força da representatividade, aquilo que Hooks (2019) define como “um olhar de dentro”, capaz de romper a narrativa colonial sobre o corpo negro. A reconexão com o cabelo natural torna-se aqui um ato político e afetivo de reapropriação do corpo, deslocando o olhar do outro e afirmando a própria beleza como afirmação de existência.
Esse negócio de você não se sentir em lugar nenhum, isso é muito triste,é muito forte [...] eu demorei anos pra poder me aceitar do jeito que eu sou, né? Então, isso é muito complicado. Não é uma coisa assim que você faz uma terapia hoje, amanhã você já se resolveu. Isso leva anos [...] fui ter essa consciência com quase 40 anos. (P4)
O relato expressa a longa travessia subjetiva entre o ódio aprendido e o amor-próprio reconquistado. Del Priore (1997) ressalta que o corpo feminino negro no Brasil é historicamente situado à margem dos espaços de desejo e reconhecimento, o que faz da autoaceitação um processo político e também terapêutico. A consciência conquistada “com quase 40 anos” traduz a lenta desconstrução de narrativas racistas que se infiltram desde a infância, reiterando o que Almeida (2014) chama de “reconhecimento tardio da própria humanidade”, um gesto de resistência frente ao silenciamento imposto.
Em conjunto, as falas revelam que o racismo não atua apenas nas relações sociais, mas também na interioridade da experiência corporal. Ao narrar seu processo de libertação, a participante traz à tona a potência da reconstrução simbólica e afetiva do corpo negro como espaço de autonomia, orgulho e pertencimento.
A unidade de sentido “aparência vinculada à imagem profissional” aborda a relação entre corpo, aparência e desempenho profissional, revelando como o espaço de trabalho também se configura como território de controle e sexualização do corpo feminino. As falas da participante evidenciam a internalização de um ideal estético que associa magreza, elegância e beleza ao sucesso e à credibilidade, demonstrando que a lógica patriarcal se estende às relações corporativas e influencia a forma como as mulheres são vistas e tratadas em ambientes profissionais.
É uma coisa que eu me cobro muito, é a magreza, na minha perspectiva atual, vem junto com o sucesso. É um visual. Então assim, não é só tipo, ah, o seu físico. É como se você tivesse sucesso profissional, você tá no padrão físico, entendeu? (P3)
O relato revela o vínculo simbólico entre corpo e competência, no qual o corpo feminino torna-se extensão da performance profissional. Segundo Foucault (1996), o corpo é um campo de poder, moldado por dispositivos disciplinares que definem o que é aceitável ou desejável em cada contexto social. No ambiente corporativo, o corpo magro, polido e “bem apresentado” passa a funcionar como signo de autocontrole e eficiência, atributos valorizados pelo capitalismo contemporâneo. Assim, a mulher não é apenas avaliada pelo que produz, mas também pela forma como encarna visualmente o sucesso — o que Dantas (2011) descreve como a “estetização do mérito”.
Até na questão de os contatos, networking, quando eu vou em conferência, quando eu vou mais bem apresentada, e não é só bem apresentada só tipo com a roupa, é uma roupa realmente que fica ali mais elegante […] quando eu estou mais magra, eu já reparei que tem um visual, uma admiração maior, tanto por homens como mulheres. (P3)
Aqui, o corpo torna-se ferramenta de visibilidade e validação social. A participante identifica que ser admirada está condicionado a estar magra e elegante, o que aponta para a dimensão performativa da feminilidade nas relações de poder. Novaes (2011) discute como o corpo da mulher é construído como vitrine de valor social, um espaço onde se expressam tanto a obediência aos padrões de beleza quanto o desejo de reconhecimento. A experiência descrita reflete essa tensão: o corpo é simultaneamente veículo de ascensão e motivo de vigilância constante, evidenciando como o sucesso feminino ainda é mediado por normas estéticas.
Eu era a única gestora na empresa […] e percebi que eu consegui, é triste dizer, mas é verdade, eu sou competente profissional, porém por eu ser a única mulher e me vestir adequadamente […] era levada em várias viagens em um grupo só de homens […] meu chefe pedia até para eu ir com um vestido que eu tinha na cor azul. (P3)
Essa fala torna explícita a objetificação e sexualização sutis que permeiam o ambiente profissional. Apesar do reconhecimento de sua competência, o corpo da participante é instrumentalizado como recurso simbólico e estético para agradar, conquistar ou representar a empresa. Como aponta Almeida (2014), a violência de gênero se manifesta também nas microdemandas de adequação estética e comportamental impostas às mulheres, reforçando o corpo como “dispositivo de poder”. Ao afirmar que “na época eu tinha malícia, mas não tanta malícia das consequências que essa imagem perturbada que a gente tem socialmente”, a participante reconhece retrospectivamente a ambiguidade desse jogo: a aparência que favorece o acesso também aprisiona. O corpo feminino, nesse cenário, é reduzido a uma ferramenta de mediação entre competência e desejo, evidenciando a forma como a normatividade estética perpetua a desigualdade de gênero em espaços corporativos.
Em síntese, as falas dessa unidade de sentido revelam que, para muitas mulheres, o ambiente profissional ainda é atravessado por exigências estéticas que reforçam a ideia de que a aparência é parte do desempenho. A vinculação entre magreza, elegância e sucesso profissional evidencia a permanência de uma cultura visual patriarcal, na qual o corpo da mulher é avaliado como produto.
A unidade de sentido “dor física associada a atributos corporais” evidencia a dimensão concreta do sofrimento corporal que emerge quando o corpo real colide com o ideal estético imposto. As falas da participante revelam uma experiência de desconforto físico e emocional relacionada a atributos femininos valorizados socialmente, no caso, os seios grandes. O que, no imaginário social, é visto como símbolo de sensualidade e beleza, para ela se traduz em dor, limitação e vergonha, revelando o abismo entre o corpo vivido e o corpo idealizado.
Tem muito aquele negócio da internet, né, que fica, tipo, ah, nossa, peitão é bonito […] Só que o peitão de silicone, o peitão natural não é bonito […] ele dói as costas, ele é horroroso, não fica legal em nenhuma roupa. (P1)
A fala desmascara a lógica da estética digital, que padroniza até os atributos corporais considerados desejáveis. Frois, Moreira e Stengel (2011) apontam que os ideais de beleza difundidos pela mídia são não apenas seletivos, mas desumanizados. Aqui, a dor física é a expressão literal desse conflito: o corpo que não se enquadra na imagem retocada e simétrica das redes é percebido como errado, mesmo quando atende, parcialmente, ao padrão valorizado.
Toda roupa parece que você tá gorda, toda roupa parece que você tá vulgar […] Eu prefiro usar largo, porque aí eu não tenho que usar um sutiã que vai doer, eu não tenho que me preocupar com pessoas achando que eu tô querendo chamar atenção. (P1)
Nesse trecho, evidencia-se o entrelaçamento entre sexualização e censura, que aprisiona o corpo feminino em um duplo padrão. Como discute Hooks (2019), a cultura patriarcal transforma a corporeidade feminina em espetáculo, atribuindo-lhe significados morais e eróticos que fogem ao controle da mulher. A tentativa de esconder o corpo para evitar julgamentos reflete a internalização de um olhar punitivo que regula o comportamento feminino.
Quando eu converso com as pessoas sobre esse negócio do tipo, eu não gostar de ter peito grande, as pessoas agem como se [...] não é só usar sutiã pra não sentir dor? [...] Ah, mas tipo, é legal? E eu fico tipo, não é, dói. (P1)
Aqui, o relato revela também o silenciamento social da dor feminina, reduzida e banalizada em nome da aparência. Novaes (2011) descreve como a mulher, especialmente em contextos de idealização estética, é ensinada a negligenciar o próprio sofrimento físico e emocional em prol da adequação. A resposta social “é só usar sutiã” traduz a naturalização da dor como preço da feminilidade, enquanto o corpo que sofre é desautorizado a se queixar. “Tem vezes que dormir, o peito esmagando o outro, me deixa com dor. Então é horroroso, eu não gosto disso.” A corporeidade aparece aqui em sua dimensão mais concreta e sensível — o corpo que sente, dói, incomoda. Segundo Merleau-Ponty (1994), o corpo não é um objeto de posse, mas o próprio modo de estar no mundo. Quando a dor se torna constante, ela desorganiza essa experiência vivida, rompendo a relação de continuidade entre o sujeito e seu corpo. No caso da participante, a dor física simboliza o conflito entre o corpo biográfico (real, pesado, vivido) e o corpo-imagem (leve, ideal, projetado).
Essas falas revelam como a dor corporal também é um efeito simbólico da opressão estética, onde o corpo feminino se torna o campo de batalha entre o desejo de aceitação e o direito de existir com desconforto, imperfeição e limite. A dor, nesse sentido, não é apenas física, é socialmente produzida, inscrita e invisibilizada.
As três unidades divergentes analisadas ampliam a compreensão do fenômeno ao mostrar como a experiência da autoimagem feminina se singulariza em diferentes interseções de corpo, poder e contexto. Enquanto a primeira revela o impacto do racismo na formação identitária e na busca por pertencimento, a segunda expõe a estetização do sucesso profissional e a sexualização velada das mulheres em espaços de autoridade. Já a terceira resgata a dimensão sensível e silenciada da dor física, lembrando que o corpo vivido ultrapassa a superfície estética. Em conjunto, essas experiências evidenciam que a autoimagem feminina é atravessada por camadas de opressão, mas também por gestos de resistência e reapropriação do próprio corpo: um corpo que sente, trabalha, envelhece e, sobretudo, insiste em existir fora dos moldes impostos.
Considerações Finais
Diante de todo o percurso realizado nesta pesquisa, foi possível compreender como as redes sociais repercutem na percepção da autoimagem feminina e quais sentidos as mulheres atribuem ao próprio corpo diante dos padrões estéticos e culturais impostos pela sociedade contemporânea. A partir das análises fenomenológicas realizadas, observou-se que a experiência da autoimagem é marcada por intensos atravessamentos sociais, simbólicos e afetivos, revelando o corpo como um território de tensão entre aceitação e cobrança.
Os resultados indicaram que, embora as redes sociais e os padrões estéticos exerçam forte influência sobre a forma como as mulheres se percebem, também emergem estratégias de resistência, consciência e empoderamento. Elementos como o amadurecimento, o feminismo, o consumo crítico e o autocuidado aparecem como caminhos de reapropriação do corpo e de reconstrução do olhar sobre si. Assim, pode-se afirmar que os objetivos propostos foram alcançados, pois o estudo permitiu compreender de modo aprofundado os impactos das redes sociais na autoimagem, bem como as formas singulares de enfrentamento elaboradas pelas participantes.
A principal limitação desta pesquisa foi o número reduzido de participantes e a delimitação geográfica da amostra, o que restringe a generalização dos achados. Ainda assim, o método fenomenológico se mostrou adequado para alcançar a profundidade das experiências relatadas, oferecendo um retrato sensível e fiel das vivências femininas no contexto atual.
Considera-se que este estudo contribui para o campo da Psicologia ao evidenciar a necessidade de uma escuta clínica e social mais atenta aos efeitos da cultura da aparência sobre a saúde mental das mulheres. Sugere-se que pesquisas futuras ampliem a amostra, diversificando faixas etárias, raças e contextos socioeconômicos, e investiguem de que forma os discursos midiáticos podem ser ressignificados em espaços terapêuticos e educativos. Espera-se que este trabalho inspire reflexões sobre a importância de construir uma relação mais livre, consciente e plural com o próprio corpo.
Referências
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Anexo A: Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE)
Título da pesquisa: “Entre imagens e vivências: o corpo feminino e a autoimagem em tempos de redes sociais”
Instituição: Centro Universitário de Brasília (CEUB)
Professor orientador e pesquisador responsável: Alexandre Cavalcanti Galvão
Pesquisadora assistente: Fernanda Pessoa Ferro
Você está sendo convidada a participar do projeto de pesquisa acima citado. O texto abaixo apresenta todas as informações necessárias sobre o que estamos fazendo. Sua colaboração neste estudo será de muita importância para nós, mas se desistir a qualquer momento, isso não lhe causará prejuízo. O nome deste documento que você está lendo é Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Antes de decidir se deseja participar (de livre e espontânea vontade) você deverá ler e compreender todo o conteúdo. Ao final, caso decida participar, você será solicitada a expressar a sua concordância. Antes de assinar, faça perguntas sobre tudo o que não tiver entendido bem. A pesquisadora deste estudo responderá às suas perguntas a qualquer momento (antes, durante e após o estudo).
Natureza e objetivo do estudo
- O objetivo deste estudo é compreender a repercussão das redes sociais na percepção de mulheres sobre a autoimagem.
- Você está sendo convidada a participar exatamente por corresponder ao perfil de participante delimitado para essa pesquisa.
Procedimentos do estudo
- Sua participação consiste em responder uma entrevista individual virtual sobre o tema focalizado na pesquisa.
- O procedimento consiste em uma entrevista individual virtual, com a apresentação de imagens e um trecho de filme previamente selecionados. A entrevista será gravada em áudio, com o seu consentimento, para facilitar o posterior trabalho de análise.
- Não haverá nenhuma outra forma de envolvimento ou comprometimento neste estudo.
- A pesquisa será realizada de modo virtual. De forma mais específica, a entrevista será realizada através da plataforma do Google Meet.
Riscos e benefícios
- Este estudo possui baixos riscos que são inerentes ao procedimento de entrevista.
- Medidas preventivas serão tomadas durante a entrevista e a apresentação de imagens para minimizar qualquer risco ou incômodo. Por exemplo, será esclarecido que não há respostas certas ou erradas em relação às perguntas que serão apresentadas e que é esperado que a participante responda de acordo com as suas opiniões pessoais.
- Considerando os riscos potenciais deste estudo, caso seja necessário, será garantido o direito à assistência (imediata, integral e sem ônus) à participante, devido a danos decorrentes da participação na pesquisa e pelo tempo que for necessário (Resolução CNS nº 466 de 2012, itens II.3.1 e II.3.2).
- Caso esse procedimento possa gerar algum tipo de constrangimento, você não precisa realizá-lo, ou poderá interromper sua participação a qualquer momento.
- Com sua participação nesta pesquisa você poderá contribuir com a construção de uma compreensão mais aprofundada acerca do tema investigado.
Participação, recusa e direito de se retirar do estudo
- Sua participação é voluntária. Você não terá nenhum prejuízo se não quiser participar.
- Você poderá se retirar desta pesquisa a qualquer momento, bastando para isso entrar em contato com um(a) dos(as) pesquisadores(as) responsáveis.
- Conforme previsto pelas normas brasileiras de pesquisa com a participação de seres humanos, você não receberá nenhum tipo de compensação financeira pela sua participação neste estudo.
Confidencialidade
- Seus dados serão manuseados somente pela pesquisadora e não será permitido o acesso a outras pessoas.
- O material com as suas informações (gravação em áudio da entrevista) ficará guardado sob a responsabilidade da pesquisadora, Fernanda Pessoa Ferro, com a garantia de manutenção do sigilo e confidencialidade, e será destruído após a pesquisa.
- Os resultados deste trabalho serão apresentados para a banca de monografia da pesquisadora. Entretanto, ele mostrará apenas os resultados obtidos como um todo, sem revelar seu nome, instituição a qual pertence ou qualquer informação que esteja relacionada com sua privacidade.
Se houver alguma consideração ou dúvida referente aos aspectos éticos da pesquisa, entre em contato com o Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário de Brasília – CEP/CEUB, que aprovou esta pesquisa, pelo telefone 3966-1511 ou pelo e-mail [email protected]. O horário de atendimento do CEP-CEUB é de segunda a quinta: 09h às 12h30 e 14h30 às 18h30. O CEP é um grupo de profissionais de várias áreas do conhecimento e da comunidade, autônomo, de relevância pública, que tem o propósito de defender os interesses das participantes da pesquisa em sua integridade e dignidade e de contribuir para o desenvolvimento da pesquisa dentro de padrões éticos. Também entre em contato para informar ocorrências irregulares ou danosas durante a sua participação no estudo. Ao expressar a sua concordância, você confirma que leu as afirmações contidas neste termo de consentimento, que foram explicados os procedimentos do estudo, que teve a oportunidade de fazer perguntas, que está satisfeita com as explicações fornecidas e que decidiu participar voluntariamente deste estudo. Caso tenha qualquer dúvida sobre a pesquisa, incluindo os danos possíveis, entre em contato com a pesquisadora pelo celular ou pelo e-mail apresentados a seguir.
Eu ________, após receber a explicação completa dos objetivos do estudo e dos procedimentos envolvidos nesta pesquisa, concordo voluntariamente em fazer parte deste estudo.
Brasília, ____ de ________ de 2025.
Anexo B: Roteiro de Entrevista
1ª parte da Entrevista
Bloco 1 – Relação com o corpo e a autoimagem
- Como você se percebe fisicamente atualmente?
- Como você descreveria sua relação com seu corpo hoje?
- Houve momentos em sua vida em que se sentiu mais satisfeita ou insatisfeita com seu corpo? O que você associa a esses momentos?
- Você costuma pensar no seu corpo com frequência? Em que situações isso acontece?
Bloco 2 – Padrões estéticos e normatividade
- Em sua opinião, o que é um corpo bonito? Essa ideia veio de onde?
- Na sua opinião, o que é considerado um corpo bonito?
- Você já se comparou com alguma mulher dentro desses padrões? O que sentiu nesse momento?
- Você sente alguma pressão para se parecer com esses corpos? Como isso impacta seu cotidiano?
Bloco 3 – Experiência com redes sociais
- Você utiliza redes sociais? Quais costuma acessar com mais frequência e por quê?
- Como você costuma se sentir enquanto navega pelas redes sociais? Poderia descrever uma situação marcante?
- O que passa pela sua cabeça quando vê conteúdos de influenciadoras, fotos com filtros ou imagens de corpos muito “padronizados”?
Bloco 4 – Percepção social e crítica
- Como você percebe a forma como os corpos femininos são representados nas redes sociais hoje?
- Como você acredita que outras pessoas (como homens, amigas ou parentes) vêem o corpo das mulheres nas redes?
- Você sente que o feminismo teve (ou tem) algum impacto sobre a forma como as mulheres são vistas ou se veem? Isso reflete na sua vivência?
Pergunta final (livre)
- Existe algo importante sobre sua relação com o corpo ou com as redes sociais que não foi perguntado aqui, mas que você gostaria de compartilhar?
2ª parte da Entrevista
Imagem
- O que você vê nessa imagem?
- O que você sente diante dessa imagem? Por quê?
- Você segue alguma delas?
- Você segue alguma influenciadora que apresenta corpos diferentes dos apresentados nas imagens?
Trecho do filme A Substância (2024)
01:10:40 a 01:16:30 (cena de 6 min 10 seg) Cena completa está na plataforma MUBI: https://mubi.com/pt/br/films/the-substance https://youtu.be/O9nfzMT05ck?si=69jFeytGtNKdtRZG (trecho reduzido do YouTube)
- Como foi para você assistir esse trecho do filme?
- Como você se sentiu ao assistir o trecho do filme?
- Que pensamentos vieram à sua mente enquanto assistia o trecho?
Dados sociodemográficos
- Idade: ____ anos
- Identidade de gênero: ____
- Etnia/Raça (autodeclarada): ____
- Escolaridade: ( ) Ensino fundamental incompleto ( ) Ensino fundamental completo ( ) Ensino médio incompleto ( ) Ensino médio completo ( ) Ensino superior em andamento ( ) Ensino superior completo ( ) Pós-graduação (lato/stricto sensu)
- Ocupação/Profissão: ____
- Estado civil: ____
- Cidade e Estado onde reside: ____
Texto integral da monografia apresentada à banca do curso de Psicologia do UniCEUB em novembro de 2025. As participantes são identificadas apenas por número (P1 a P4). Este é um trabalho de pesquisa, não um material de diagnóstico. Se você precisa de ajuda agora, veja onde pedir ajuda no seu país (no Brasil, CVV 188).