Bipolar tem cura? O que muda com o tratamento
Transtorno bipolar tem cura? Entenda por que ele é tratado como condição de longo prazo, o que o tratamento faz, o papel da medicação e da psicoterapia.
O transtorno bipolar não tem cura no sentido de desaparecer pra sempre depois de um tratamento. Ele é uma condição de longo prazo, como diabetes ou hipertensão. Mas tem tratamento, e com ele muita gente passa longos períodos estável, trabalha, se relaciona, cria filhos e faz planos. O objetivo do cuidado é diminuir a frequência e a intensidade das crises, perceber cedo quando uma está chegando e viver bem entre elas.
Quando alguém recebe esse diagnóstico, uma das primeiras perguntas costuma ser essa. E por trás dela quase sempre tem medo: de nunca mais ter controle da própria vida. Esse medo é compreensível, e a realidade costuma ser mais esperançosa do que ele.
Bipolar tem cura?
O transtorno bipolar é marcado por episódios: fases de mania ou hipomania, com energia e humor muito acima do habitual, e fases de depressão. Entre eles, a pessoa pode voltar ao seu jeito por meses ou anos. Escrevi sobre como isso funciona em o que é transtorno bipolar.
O DSM-5-TR (APA, 2022) separa principalmente o transtorno bipolar tipo I, em que há pelo menos um episódio de mania, e o tipo II, com hipomania e depressão. Na CID-11, da Organização Mundial da Saúde, os códigos são 6A60 (tipo I), 6A61 (tipo II) e 6A62 (ciclotimia). Na CID-10 da OMS, o transtorno afetivo bipolar fica em F31.
Por que se fala em "não ter cura"? Porque, sem tratamento de manutenção, o risco de novos episódios continua. A tendência a oscilar faz parte de como aquele cérebro funciona. Mas "não ter cura" não é o mesmo que "não ter saída". O tratamento muda muito o curso da vida.
Transtorno bipolar tem cura? O que o tratamento faz
O tratamento do transtorno bipolar costuma ter três frentes, que andam juntas.
1. Medicação, com psiquiatra
A medicação é a base do tratamento do transtorno bipolar. Os remédios mais usados são os estabilizadores de humor, como o lítio, e alguns antipsicóticos. A escolha depende do tipo, da fase, da história e dos efeitos em cada pessoa, e quem decide é o psiquiatra.
O lítio é um dos remédios mais estudados. Uma revisão de ensaios clínicos encontrou que ele reduz o risco de suicídio em pessoas com transtornos de humor, comparado ao placebo (Cipriani et al., 2013).
Um cuidado: antidepressivo sozinho, sem estabilizador, pode desencadear uma virada pra mania ou hipomania em algumas pessoas com transtorno bipolar. Por isso o diagnóstico correto faz tanta diferença, e por isso ninguém deve começar, trocar ou parar remédio por conta própria.
2. Psicoterapia e psicoeducação
A medicação sozinha costuma não bastar. As diretrizes do NICE, o instituto de saúde do Reino Unido (NICE, 2014, CG185), recomendam intervenções psicológicas estruturadas junto com o tratamento médico.
A psicoeducação é uma das mais estudadas. Num ensaio clínico com pessoas com transtorno bipolar em fase estável, quem participou de um grupo de psicoeducação teve menos recaídas, tanto de mania quanto de depressão, ao longo de dois anos, do que quem participou de um grupo de apoio sem esse conteúdo (Colom et al., 2003).
Outras abordagens com estudos são a terapia cognitivo-comportamental, a terapia interpessoal e de ritmo social, que trabalha a regularidade da rotina e do sono, e a terapia focada na família.
3. Rotina e sinais de alerta
Na prática, muito do cuidado acontece no dia a dia:
- Sono regular. Dormir muito menos que o habitual costuma ser um dos primeiros sinais de virada, e também pode desencadear uma.
- Diário do humor, pra perceber padrões e conversar com a equipe com dados.
- Plano de crise combinado antes, com a família ou alguém de confiança: quais sinais observar, quem chamar, o que fazer.
- Cuidado com álcool e drogas, que pioram o curso do transtorno e atrapalham o efeito dos remédios.
Bipolar pode ter uma vida normal?
Pode ter uma vida plena, com trabalho, amor, filhos e projetos. Muita gente com transtorno bipolar vive assim. Isso não quer dizer que nunca vai ter crise. Quer dizer que dá pra aprender a reconhecer os sinais cedo, buscar ajuda rápido e se recuperar.
O que mais atrapalha costuma ser o abandono do tratamento. É comum a pessoa ficar bem por um tempo e achar que não precisa mais do remédio. Ou sentir falta da energia da hipomania. Essas são conversas importantes pra ter com o psiquiatra, e não decisões pra tomar sozinha.
E se eu ainda não tenho diagnóstico?
Se você está se perguntando se o que sente é bipolaridade, o primeiro passo é uma avaliação com psiquiatra. Oscilação de humor é muito comum e nem sempre é transtorno bipolar. Ansiedade, TDAH, borderline, uso de substâncias, alterações hormonais e de tireoide também mexem com humor e energia. Escrevi sobre isso em bipolaridade ou oscilação de humor e em sinais de bipolaridade.
Se quiser organizar o que você percebe antes da consulta, o teste de bipolaridade faz perguntas sobre energia, sono e humor. Ele não identifica o transtorno. Serve pra você levar suas observações pra uma avaliação.
Onde a psicóloga entra
Eu trabalho com a Abordagem Centrada na Pessoa. No transtorno bipolar, a psicoterapia não substitui o psiquiatra. Ela anda junto. Na terapia, a gente trabalha o luto do diagnóstico, a vergonha, o medo de perder o controle, as relações que ficaram machucadas depois de uma crise, e o jeito de cuidar da própria rotina sem viver em vigilância o tempo todo. Quando uma abordagem estruturada, como a psicoeducação ou a TCC, é o que a pessoa mais precisa no momento, eu digo isso e indico.
Se estiver pesado agora
Nas fases de depressão, e também nas mistas, o risco de suicídio aumenta. Se você está pensando em se machucar ou em não estar mais aqui, ligue para o CVV no 188, 24 horas, de graça e em sigilo, ou acesse cvv.org.br. Em risco imediato, ligue 192 ou vá a um pronto-socorro. Outros contatos estão em ajuda agora.
Se quem está em crise é alguém próximo, em mania ou em depressão grave, procure o psiquiatra dela, o CAPS da região ou um pronto-socorro.
Perguntas frequentes
Bipolaridade tem cura com terapia?
A psicoterapia ajuda muito, principalmente a prevenir recaídas e a lidar com o diagnóstico, mas não substitui a medicação no transtorno bipolar. O melhor resultado costuma vir das duas coisas juntas.
Quem tem bipolaridade precisa tomar remédio pra sempre?
Na maioria dos casos, o tratamento de manutenção é longo, muitas vezes por anos ou pela vida toda, porque o risco de novos episódios continua. Qualquer mudança deve ser decidida com o psiquiatra, nunca de repente.
Transtorno bipolar piora com o tempo?
Sem tratamento, as crises podem ficar mais frequentes. Com tratamento regular, muita gente fica estável por longos períodos. O curso varia muito de pessoa pra pessoa.
Bipolar tipo 2 tem cura?
O tipo II também é tratado como condição de longo prazo. As fases de depressão costumam pesar mais nele, e o tratamento busca prevenir tanto a depressão quanto a hipomania.
Bipolaridade é hereditária?
Ter familiar próximo com transtorno bipolar aumenta o risco, mas não determina. Muita gente com histórico na família não desenvolve o transtorno.
Referências
- American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR). APA.
- Organização Mundial da Saúde. CID-11: Classificação Internacional de Doenças, 11ª revisão. Códigos 6A60, 6A61 e 6A62.
- Cipriani, A., Hawton, K., Stockton, S., & Geddes, J. R. (2013). Lithium in the prevention of suicide in mood disorders: updated systematic review and meta-analysis. BMJ, 346, f3646.
- Colom, F., Vieta, E., Martínez-Arán, A., et al. (2003). A randomized trial on the efficacy of group psychoeducation in the prophylaxis of recurrences in bipolar patients whose disease is in remission. Archives of General Psychiatry, 60(4), 402-407.
- National Institute for Health and Care Excellence. (2014). Bipolar disorder: assessment and management (Clinical guideline CG185).
Este texto é informativo e não substitui avaliação profissional. Não é diagnóstico. Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga, CRP 01/30999.
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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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