Psicóloga Fernanda Pessoa Ferro

CRP 01/30999-A base do trabalho · o que a pesquisa mostra

Por que fazer terapia em português muda o que você consegue dizer

Você já tentou explicar em outra língua o que estava sentindo e ouviu a frase sair morna.

Por Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga (CRP 01/30999) · atualizado em julho de 2026

01-Resposta curta

O que a língua materna muda na terapia?

A língua em que você aprendeu a sentir guarda a memória junto com a palavra. Falar da dor nela chega mais perto do que doeu. Numa segunda língua, você traduz antes de sentir, e a tradução amortece. É por isso que fazer terapia em português pode mudar o que você consegue dizer.

02-O achado central

A língua onde a emoção mora.

Quem cresceu falando português aprendeu a sentir em português. As primeiras vezes que você teve medo, vergonha, raiva ou saudade, alguém deu nome àquilo pra você nessa língua. A palavra entrou junto com a cena.

É isso que Santiago-Rivera (1995) e Pérez Foster (1998) descrevem. As palavras de emoção aprendidas na primeira língua carregam uma representação mais profunda, com a memória e o corpo colados nelas. Quando você busca o equivalente em inglês, em alemão ou em japonês, encontra uma palavra que significa a mesma coisa e ativa menos associação.

O dicionário acerta. O resto não vem junto.

Na sessão isso aparece de um jeito bem concreto: você sabe o nome do sentimento no outro idioma e ainda precisa de um tempo pra chegar nele. Em português, às vezes a palavra chega antes de você decidir dizer.

03-O que quase ninguém conta

O outro lado disso, que quase ninguém conta.

Se a segunda língua ativa menos, ela também protege. Falar da parte mais difícil em inglês pode ser mais fácil justamente porque dói menos ali. E dói menos porque você sente menos.

A mesma literatura descreve esse uso do idioma como uma função de defesa. Trocar de língua pode ser uma forma de não chegar perto do assunto. Isso não tem a ver com esforço nem com vocabulário: a mente encontrou um jeito de contar a história de longe, e funciona.

O achado vale nas duas direções, e é aí que ele fica útil. Se você percebe que consegue falar do assunto pesado no idioma de fora com uma facilidade estranha, talvez valha reparar no que essa facilidade está guardando. E se em português a coisa fica difícil rápido demais, pode ser que você tenha chegado perto do que importa. Ficar difícil ali não quer dizer que você escolheu a língua errada.

Nenhuma das duas leituras é regra. São hipóteses pra levar pra dentro da sessão e olhar com calma, com alguém do lado.

04-O que a pesquisa mediu

Terapia adaptada à cultura funciona.

Existe medida disso. Em 2016, Gordon Hall e colegas reuniram 78 estudos e quase 14 mil pessoas na revista Behavior Therapy. Quando compararam a mesma terapia em duas versões, uma adaptada à cultura de quem recebia e outra não, a adaptada saiu na frente (g = 0,52).

Aquele número entre parênteses é um tamanho de efeito, ou effect size: uma forma de medir o quanto a diferença entre dois grupos foi grande, e não apenas se ela existiu.

Adaptar culturalmente quer dizer coisas bem terrenas: a língua do atendimento, as referências que a pessoa usa pra explicar a vida dela, o que precisa ser explicado antes e o que já se entende sem explicação nenhuma. Quando alguém diz “minha mãe ligou” e quem escuta sabe o peso disso numa família brasileira, a sessão anda em outro lugar.

Um cuidado importante: esse número descreve o que aconteceu com grupos de pessoas em pesquisa. Ele não prevê o seu resultado. Média nenhuma prevê uma sessão, e ninguém aqui está prometendo nada pra você.

O campo que estuda isso tem nome, e a explicação inteira - aculturação, as quatro posições de Berry e o que a pesquisa aponta sobre manter as duas culturas - está em psicologia intercultural.

Se quiser entender a abordagem que sustenta esse atendimento, dá uma olhada na Abordagem Centrada na Pessoa, que é o lugar de onde a escuta parte aqui.

05-Continuar também conta

Escolher quem te entende ajuda a continuar.

Nada do que está acima importa se a pessoa desiste na terceira sessão. E desistir cedo é bem comum quando cada encontro custa um esforço extra pra ser entendida.

Segundo dados publicados pelo Psychology Today, a retenção em psicoterapia é entre 11% e 14% maior quando a pessoa escolhe o profissional por identidade compartilhada.

Vale ler esse dado pelo que ele é. Ele fala sobre continuar. Do que acontece dentro da sessão ele não diz nada, e não serve como promessa de resultado. Continuar, ainda assim, é o que dá tempo pro trabalho acontecer.

-Quem escreveu isso

A voz por trás do texto.

Ler sobre língua e emoção é uma coisa. Ouvir a pessoa que vai te escutar é outra. Aqui eu me apresento com as minhas próprias palavras.

Um recado meu, antes de você decidir.

06-Enquadramento honesto

O que isso não significa.

Nada disso quer dizer que a psicóloga ou o psicólogo daí é pior. Muita gente faz um trabalho excelente com profissional local, no idioma do país, e sai de lá melhor do que entrou. Vários sistemas de saúde lá fora oferecem acesso que no Brasil seria difícil de conseguir, e isso tem valor.

São caminhos diferentes. O que muda entre eles é onde o seu esforço fica. Com um profissional local, parte da sua energia vai pra traduzir o que você sente. Em português, essa parte fica livre pra outra coisa.

Tem quem prefira justamente o esforço da tradução, e tem razão pra isso: a seção acima mostra que a distância às vezes ajuda. E tem quem faça as duas coisas em momentos diferentes da vida.

Se você já está em atendimento com alguém daí e se sente bem nesse lugar, não existe motivo pra trocar. Essa página não é convite pra abandonar ninguém.

08-Dúvidas

Perguntas frequentes

Faz diferença mesmo fazer terapia na minha língua?
Faz, e a diferença vai além do conforto. As palavras de emoção que você aprendeu primeiro em português vêm com a memória colada nelas. Na segunda língua você chega no significado e às vezes não chega na cena. Isso muda o que aparece na sessão.
E se eu já falo bem o idioma daqui?
Falar bem resolve a comunicação. A proximidade é outra coisa. Tem gente fluente que consegue falar da própria dor no idioma de fora com uma facilidade que surpreende, e parte disso é a língua estrangeira amortecendo o assunto. Se for o seu caso, isso é informação útil e vale levar pra sessão.
Depois de tantos anos fora, eu já misturo as duas línguas. Isso atrapalha?
Não atrapalha. Vai aparecer palavra em inglês, em alemão ou em japonês no meio da frase, e às vezes é justamente ela que descreve melhor o que você viveu aí. Você fala como fala hoje. Ninguém vai te corrigir, e o português que sobrou em você continua sendo o seu.
E como isso funciona legalmente?
O Conselho Federal de Psicologia autoriza psicólogas com registro ativo a atender por vídeo, inclusive quem mora em outro país. Eu atendo dentro dessa regra, e o atendimento segue a legislação brasileira.

Primeiro passo

Na sua língua, do começo.

Sessões online de 50 minutos, em português, de onde você estiver. No primeiro encontro você fala e eu escuto.

Ou manda mensagem antes

Referências

De onde vem cada afirmação

  1. 01

    Santiago-Rivera, A. L. (1995). Journal of Counseling & Development, 74(1), 12-17. Ver o estudo

    Língua materna, emoção e o uso da segunda língua como distanciamento no processo clínico.

  2. 02

    Pérez Foster, R. (1998). The Power of Language in the Clinical Process.

    Como a memória afetiva fica ligada à língua em que a experiência foi vivida.

  3. 03

    Hall, G. C. N., Ibaraki, A. Y., Huang, E. R., Marti, C. N. & Stice, E. (2016). Behavior Therapy, 47(6), 993-1014. Ver o estudo

    Meta-análise de 78 estudos e 13.998 participantes sobre intervenções psicológicas culturalmente adaptadas. O g = 0,52 citado aqui é a comparação entre a mesma intervenção nas versões adaptada e não adaptada.

  4. 04

    Psychology Today (publicação de divulgação). Dados publicados sobre retenção em psicoterapia e identidade compartilhada.

    Não é artigo revisado por pares. Está aqui com essa ressalva porque o dado é útil e a origem dele precisa ficar clara.

Esta página é conteúdo informativo e de reflexão. Não constitui avaliação psicológica, diagnóstico ou recomendação clínica. Apenas uma consulta com profissional habilitado pode oferecer cuidado individualizado. Se você precisa de ajuda agora, veja onde pedir ajuda no seu país. Texto de Fernanda Pessoa Ferro, CRP 01/30999, revisado em julho de 2026.