Psicóloga Fernanda Pessoa Ferro

Estou esquecendo palavras em português e isso me assusta

Responsável técnica: Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga clínica (CRP 01/30999) · Atualizado em 09 de setembro de 2026

Travar numa palavra em português depois de anos usando outra língua é comum e tem nome: atrito linguístico. A palavra quase sempre continua lá, o acesso a ela é que ficou mais lento por falta de uso.

Você está contando uma coisa pra sua mãe no telefone e trava. A palavra é simples. Você usou ela a vida inteira. E o que vem na sua cabeça é a versão em inglês, em alemão, em japonês.

Dá um susto que não é proporcional ao problema, e vale entender por quê.

O que está acontecendo com a palavra

Ela não sumiu. O caminho até ela é que ficou menos usado.

Língua funciona por acesso. Palavra que você usa todo dia está na frente, palavra que você não usa há três anos está no fundo. Quando o seu dia inteiro acontece em outro idioma, o português vira a língua do fim de semana, e o acesso desacelera.

Isso tem nome na área de linguagem: atrito linguístico. É descrito em quem muda de país e passa a usar pouco o idioma de origem, e a característica principal é justamente essa, dificuldade de acessar e não perda do que se sabe. Tanto que a palavra volta na hora em que alguém diz ela, e você reconhece na mesma hora.

Por que assusta tanto

Porque português não é só um idioma que você fala. É o lugar onde você foi criança.

Quando trava uma palavra, o medo que aparece não é o de comunicação. É o de estar perdendo a coisa que te liga ao Brasil, à sua família, a quem você era antes de mudar. Muita gente descreve exatamente assim: como se estivesse se apagando aos poucos de um lugar.

E tem a parte social, que machuca de outro jeito. Você vai ao Brasil, mistura as duas línguas sem perceber, e alguém brinca que você está se achando. A brincadeira dói mais do que devia, porque não era exibição, era falta de acesso.

O que é esperado

Travar em palavra específica, principalmente palavra de coisa do dia a dia daí que você aprendeu na outra língua. Ninguém sabe dizer prazo do aluguel em português se assinou contrato só em finlandês.

Misturar as duas línguas numa frase. Isso é comum entre bilíngues e não é sinal de estar perdendo nenhuma das duas.

Demorar mais pra montar a frase em português depois de uma semana inteira sem falar.

Sentir o próprio português mais duro do que era, com menos gíria e menos ritmo. Faz sentido: a gíria muda no Brasil e você não está lá pra acompanhar.

O que costuma ajudar

Uso, e não estudo. A língua não precisa ser aprendida de novo, precisa ser exercitada.

Podcast e leitura em português ajudam menos do que falar, porque ouvir mantém a compreensão e o que enferrujou foi a produção. Ligar pra alguém, mandar áudio comprido em vez de texto, ler alto pro filho. Qualquer coisa que faça você produzir a língua em vez de só receber ela.

Se tem criança em casa, isso resolve duas coisas de uma vez, porque falar português em casa mantém o seu e o dela.

Quando vale procurar avaliação

Aqui a honestidade importa mais que o tranquilizar.

O padrão descrito acima é sobre acesso a palavras num idioma que você usa pouco. É diferente de esquecer compromisso, se perder em caminho conhecido, não lembrar de conversa recente, ou ter dificuldade com palavra também na língua que você usa todo dia.

Se o esquecimento aparece nas duas línguas, se afeta memória de acontecimentos e não só de vocabulário, ou se alguém próximo notou antes de você, isso não é atrito linguístico e merece avaliação médica. Não pra assustar: pra não deixar de olhar uma coisa achando que é outra.

E se o susto virou preocupação constante, com você se testando o tempo todo pra ver se ainda lembra, aí o assunto já é a ansiedade em torno disso, e conversar com alguém ajuda mais do que checar.

Quando buscar ajuda profissional

Só um profissional pode avaliar o que você sente e o que faz sentido pro seu momento. Este texto é um ponto de partida pra pensar, não uma avaliação nem um diagnóstico. Se o que você sente insiste, se atrapalha sua rotina, ou se você só quer ter com quem conversar sobre isso, marcar uma conversa com uma psicóloga é um caminho possível.

Perguntas frequentes

Dá pra perder o português de vez?
Em adulto que cresceu falando a língua, perder por completo não é o que se descreve. O que se descreve é acesso mais lento e vocabulário menos disponível, com recuperação rápida quando a pessoa volta a usar. Perda mais profunda aparece em quem saiu do país ainda criança.
Meu português ficou estranho e minha família implica. Como lidar?
Costuma ajudar dizer o que é de verdade, que a palavra some na hora e volta depois, em vez de deixar parecer afetação. A implicância quase sempre é brincadeira sem noção do quanto o assunto mexe com você, e ela muda quando a pessoa entende o que está acontecendo.
Misturar as duas línguas numa frase é ruim?
Não é sinal de problema nem de domínio ruim de nenhuma das duas. Alternar entre idiomas é descrito como comum em pessoas bilíngues, e acontece principalmente quando a palavra da outra língua é a mais usada pra aquele contexto específico.

Se este texto conversou com você

Às vezes colocar em palavras já ajuda. Se quiser ir além, dá pra conversar comigo sobre o que você está sentindo.

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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999 · Abordagem Centrada na Pessoa

Este conteúdo é psicoeducativo e não substitui atendimento psicológico.