Dia das mães com a minha mãe do outro lado do mundo
Responsável técnica: Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga clínica (CRP 01/30999) · Atualizado em 09 de setembro de 2026
Essa data pega quem mora fora de dois lados ao mesmo tempo: você é homenageada como mãe e sente falta da sua no mesmo dia. E como o calendário muda de país pra país, a data quase nunca acontece junto pra vocês duas.
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De manhã seu filho chega com o desenho que fez na escola. Você agradece, guarda, tira foto pra mandar.
E em algum momento do dia você senta pra ligar pra sua mãe, e não é a mesma coisa. Nunca é.
A data que chega duas vezes
Um detalhe prático que faz mais diferença do que parece: o dia das mães não é no mesmo dia em todo lugar.
Em alguns países é em março, em outros em maio, em outros em outro mês qualquer. Então você é homenageada num domingo em que ninguém no Brasil está pensando nisso, e a sua mãe é homenageada num domingo comum daí, em que você está trabalhando ou levando criança pra atividade.
Parece bobagem e não é. Data compartilhada é uma coisa que aproxima justamente por acontecer ao mesmo tempo. Quando ela se divide em duas, cada uma fica sozinha na sua.
Ser as duas coisas no mesmo dia
Essa é a parte que quase ninguém nomeia.
Você é mãe aqui, e é olhada como o centro da casa. E é filha lá, e ali você é a que foi embora.
Os dois papéis se encontram nesse domingo. Você recebe o cartão do seu filho e pensa na sua mãe abrindo uma mesa sem você. Você ganha abraço e sente falta de abraço. Alegria e culpa no mesmo dia, e é difícil dizer isso em voz alta sem parecer ingrata com quem está do seu lado.
O que costuma doer sem aviso
A chamada com a família no Brasil. Muita gente descreve que ver a mesa reunida na tela é pior que não ver.
A percepção do envelhecimento. Foto de dia das mães é foto de ano a ano, e é ali que a mudança aparece.
E a sua própria maternidade sem rede. Nesse dia fica escancarado o que faltou o ano inteiro: sua mãe não conhece a rotina do seu filho, não sabe do que ele gosta, não esteve em nenhuma das vezes em que você precisou.
O que costuma ajudar
Marcar a data que importa pra vocês duas, e não as duas datas. Muita família resolve isso escolhendo uma delas como a de verdade, e a outra passa sem cobrança.
Falar de manhã, antes do dia lotar. À tarde a casa dela está cheia e você fica esperando a vez, o que costuma terminar mal.
Mandar coisa concreta em vez de mensagem. Flor entregue lá, comida encomendada, vídeo do neto falando com ela. O que sustenta esse dia é presença material, e não frase bonita.
E deixar espaço pro seu, porque a sua homenagem também é sua. Muita gente passa o dia inteiro administrando a saudade e esquece que ali também é a mãe dela sendo celebrada.
Sobre a culpa que aparece nesse dia
Ela costuma vir na forma de uma pergunta: quantos dia das mães ainda vou passar longe.
Essa conta é dura e é real, e ela não precisa ser respondida hoje. Vale mais dizer isso pra alguém do que deixar rodando sozinha num domingo.
E se você e sua mãe têm uma relação difícil, ou se ela já não está aqui, esse dia costuma pesar por motivos que não têm nada a ver com distância. Também nesses casos vale ter com quem falar antes da data, e não depois.
Quando conversar com alguém ajuda
Se a data virou um dia que você teme com semanas de antecedência. Se você chora e não consegue explicar pra quem está do seu lado. Se a culpa por estar longe da sua mãe está atravessando a sua relação com o seu próprio filho.
Esse acúmulo tem peso, e ele costuma ser tratado como bobagem de data comemorativa quando é sobre uma perda que acontece todo dia e só fica visível nesse domingo.
Quando buscar ajuda profissional
Só um profissional pode avaliar o que você sente e o que faz sentido pro seu momento. Este texto é um ponto de partida pra pensar, não uma avaliação nem um diagnóstico. Se o que você sente insiste, se atrapalha sua rotina, ou se você só quer ter com quem conversar sobre isso, marcar uma conversa com uma psicóloga é um caminho possível.
Perguntas frequentes
- Devo comemorar na data do Brasil ou na daqui?
- Não tem regra, e muita família resolve escolhendo uma como a oficial pra evitar duas rodadas de expectativa e frustração. O que costuma render mais é combinar isso explicitamente com a sua mãe, em vez de cada uma esperar da outra no seu próprio calendário.
- Minha mãe fica magoada porque não estou. Como lidar?
- Costuma ajudar mais um gesto concreto na data do que uma explicação sobre distância, porque explicação já foi dada muitas vezes e não muda o que ela sente naquele domingo. E vale dizer que dói em você também, o que raramente é dito e raramente é imaginado do outro lado.
- Me sinto mal por ficar triste num dia em que meus filhos me homenageiam. É errado?
- Não, e as duas coisas cabem juntas. Ser mãe aqui e filha longe se encontram nessa data, e sentir alegria e saudade no mesmo dia não tira o valor de nenhuma das duas. Fingir que só existe a primeira costuma cansar mais do que admitir as duas.
Outras dores
Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999 · Abordagem Centrada na Pessoa
Este conteúdo é psicoeducativo e não substitui atendimento psicológico.