Psicóloga Fernanda Pessoa Ferro

Eu escolhi vir. Então por que eu não gosto daqui?

Responsável técnica: Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga clínica (CRP 01/30999) · Atualizado em 09 de setembro de 2026

Escolher uma coisa não te obriga a gostar dela. Você decidiu com as informações que tinha e ganhou uma vida inteira que não estava no plano. Não gostar daqui é uma avaliação, e não uma traição da sua própria decisão.

Ninguém te obrigou. Você quis, planejou, comemorou, postou a foto do aeroporto. Tem gente no Brasil que acha que você ganhou na loteria.

E você acorda numa terça-feira com uma vontade enorme de ir embora, e a primeira coisa que aparece não é tristeza. É vergonha.

A culpa costuma pesar mais que o desgosto

Repare no que acontece na sua cabeça quando o pensamento chega.

Primeiro vem o não gosto daqui. Logo atrás vem o mas eu escolhi, o tem gente que daria tudo, o você está sendo mal-agradecida. E aí a queixa é engolida antes de virar frase.

Essa segunda parte é a que mais cansa. Não gostar de um lugar é informação, e informação a gente usa. Culpa por não gostar não é usável em nada: ela só te impede de olhar direito pro que está incomodando.

O que você escolheu não era isso

Aqui está a parte que quase ninguém fala.

Você escolheu com base no que dava pra saber: o emprego, o salário, a segurança, a escola, a possibilidade. Tudo isso pode estar funcionando bem.

O que você não escolheu foi o pacote que veio junto, porque ele não estava descrito em lugar nenhum. Ninguém escolhe a solidão de não ter com quem falar num domingo. Ninguém escolhe descobrir que aqui você é a estrangeira, com sotaque, não importa há quanto tempo. Ninguém escolhe o cansaço de operar o dia inteiro em outra língua, o escuro às quatro da tarde, o mercado sem nada que você reconhece, a burocracia que te trata como número.

Então a conta que você está fazendo é injusta com você mesma. Você não escolheu isso e está achando ruim. Você escolheu aquilo, e isso veio junto.

Não gostar do lugar e ter feito a coisa certa cabem juntos

Uma decisão pode ser acertada e custar caro ao mesmo tempo.

Muita gente que mudou de país tem as duas coisas verdadeiras na mesma frase: aqui minha filha tem futuro, e eu odeio morar aqui. Isso não é contradição, é o custo aparecendo separado do benefício.

Quando você admite as duas, a decisão fica mais fácil de sustentar, não mais difícil. O que insustentável mesmo é fingir que não tem custo e sentir o custo todo dia.

O que costuma estar embaixo do não gosto daqui

Vale abrir a frase, porque ela quase sempre é um agregado.

Pra muita gente é solidão, e não o país. Pra outras é perda de status: você era competente, respeitada, tinha nome, e aqui é a pessoa com sotaque que refaz a carreira do zero. Pra outras é falta de sol, ou uma cidade onde ninguém puxa conversa, ou a sensação permanente de estar sendo tolerada.

Cada uma dessas tem caminhos diferentes. Odiar o país inteiro não tem caminho nenhum, porque não dá pra fazer nada com uma coisa desse tamanho.

Sobre pensar em voltar

Pensar em voltar não é fracasso e não é decisão. É um pensamento, e ele costuma aparecer mais nos períodos ruins, o que faz sentido e também faz dele um péssimo conselheiro.

Vale saber que voltar tem processo próprio e costuma surpreender: o Brasil que você deixou mudou, os amigos seguiram, e o estranhamento na volta pega muita gente desprevenida. Isso não é argumento pra ficar. É argumento pra decidir com informação em vez de decidir na terça-feira ruim.

Quando conversar com alguém ajuda

Se você não consegue falar disso com ninguém, porque a família no Brasil não entende e as pessoas daqui você não conhece bem o suficiente.

Se a culpa está tomando mais espaço que a queixa. Se a vontade de ir embora virou pensamento diário. Ou se, além de não gostar daqui, você perdeu o gosto por coisas que gostava antes, o que é outro assunto e merece atenção.

Falar disso em voz alta com alguém que não vai te julgar por ingratidão costuma ser a primeira vez que a coisa fica do tamanho real.

Quando buscar ajuda profissional

Só um profissional pode avaliar o que você sente e o que faz sentido pro seu momento. Este texto é um ponto de partida pra pensar, não uma avaliação nem um diagnóstico. Se o que você sente insiste, se atrapalha sua rotina, ou se você só quer ter com quem conversar sobre isso, marcar uma conversa com uma psicóloga é um caminho possível.

Perguntas frequentes

Não gostar daqui significa que eu deveria voltar?
Não necessariamente, e as duas perguntas são separadas. Uma é sobre como você está vivendo agora, outra é sobre onde você quer construir a sua vida. Vale responder a primeira antes, porque decisão grande tomada em período ruim costuma responder à dor e não ao projeto.
Todo mundo aqui parece feliz. É só comigo?
O que as pessoas mostram é a versão editada, e o assunto tem um custo social alto: quem reclama de morar fora costuma ser lido como mal-agradecido. Isso silencia muita gente. Em conversa privada, a queixa aparece com uma frequência que surpreende.
Como falo isso com a minha família sem parecer ingrata?
Costuma funcionar separar o que está bom do que está pesando, em vez de entregar a frase inteira. Dizer que o trabalho vai bem e que a solidão está difícil dá à sua família alguma coisa concreta pra entender, enquanto não gosto daqui costuma disparar conselho e susto.

Se este texto conversou com você

Às vezes colocar em palavras já ajuda. Se quiser ir além, dá pra conversar comigo sobre o que você está sentindo.

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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999 · Abordagem Centrada na Pessoa

Este conteúdo é psicoeducativo e não substitui atendimento psicológico.