Psicóloga Fernanda Pessoa Ferro

O primeiro inverno lá fora foi mais difícil do que eu esperava

Responsável técnica: Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga clínica (CRP 01/30999) · Atualizado em 09 de setembro de 2026

O primeiro inverno costuma ser mais duro do que qualquer um antecipa, porque ele tira ao mesmo tempo a luz, a rua e o encontro casual. Sentir o baque é comum. O que não é comum, e merece avaliação, é o quadro que se instala e não cede.

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Você sabia que ia ser frio. Comprou casaco, botou aquecedor, se preparou pro frio.

O que ninguém te avisou é que o problema não é o frio.

O que realmente pega

É a luz. Escurece às quatro da tarde e você tem a sensação de que o dia acabou antes de você fazer qualquer coisa. Sai de casa no escuro, volta no escuro, e passa semanas sem ver o sol direito.

É a rua vazia. A vida social daí, que já era discreta no verão, some. As pessoas entram em casa e ficam. Não tem ninguém na calçada, ninguém no banco da praça, nenhum encontro que acontece por acaso.

É o encolhimento do dia. Tudo demora mais: vestir, sair, chegar. Uma coisa que era simples vira operação, e no fim da semana você percebe que não fez nada além de trabalhar.

E é a falta de referência. Você não cresceu com isso. No Brasil, dia ruim tinha compensação em algum lugar, sol no fim de semana, gente na rua, alguma coisa aberta. Aqui o inverno não abre exceção por meses.

Por que o primeiro é o pior

Porque você não tem experiência de que passa.

Quem já viveu quatro invernos sabe, no corpo, que aquilo termina. Você não sabe. Em janeiro, quando ainda faltam dois ou três meses, a sensação não é de estar no meio de uma estação: é de que a sua vida virou isso.

Junta com a chegada recente. É provável que você ainda esteja construindo tudo, língua, trabalho, amizade, e o inverno derruba exatamente a parte que depende de sair de casa. Aí a adaptação inteira parece ter travado, e é difícil separar o que é estação do que é a mudança.

O que costuma ajudar de verdade

Luz de manhã, mesmo com céu cinza. Sair no começo do dia, nem que seja pra dar uma volta curta, é o que mais aparece nos relatos de quem atravessa bem.

Compromisso fixo fora de casa. Uma vez por semana, com hora marcada e outra pessoa envolvida, porque plano que depende só da sua vontade não sobrevive a fevereiro.

Casa quente e iluminada, sem economia excessiva. Muita brasileira passa o primeiro inverno com medo da conta e vive num apartamento frio e escuro, o que piora tudo.

Movimento, do tamanho que couber. E contato com gente que entende o que é isso, principalmente quem já passou por vários invernos aí.

E marcar alguma coisa boa no meio, porque saber que tem um ponto no calendário muda o tamanho da coisa.

O que merece atenção médica

Aqui a diferença importa, e ela não é sobre intensidade da queixa.

Baque de inverno vai e vem, dá trégua num dia de sol, melhora quando você sai e encontra alguém.

O que precisa de avaliação é o quadro que se instala: tristeza que não cede, perda de interesse por coisas que você gostava, sono muito alterado, mudança grande de apetite ou peso, dificuldade de fazer o que precisa ser feito, cansaço que dura semanas.

Existem condições ligadas à variação de luz ao longo do ano, e elas têm tratamento. Isso é conversa com médico, não com internet, e não é exagero procurar. Muita gente atravessa dois ou três invernos em sofrimento evitável achando que é só questão de se acostumar.

E se em algum momento aparecer a sensação de que não vale a pena continuar, isso não é assunto pra esperar a primavera. Procure ajuda imediatamente, no serviço de emergência ou na linha de apoio do país onde você está.

Quando buscar ajuda profissional

Só um profissional pode avaliar o que você sente e o que faz sentido pro seu momento. Este texto é um ponto de partida pra pensar, não uma avaliação nem um diagnóstico. Se o que você sente insiste, se atrapalha sua rotina, ou se você só quer ter com quem conversar sobre isso, marcar uma conversa com uma psicóloga é um caminho possível.

Perguntas frequentes

É normal chorar sem motivo no inverno?
Aparece com frequência nos relatos de quem passa o primeiro inverno em país de pouca luz, e costuma vir junto com irritação e cansaço. Vale observar a frequência: episódios que passam são uma coisa, e um estado que dura semanas sem trégua é outra, e essa segunda merece avaliação.
Vitamina D resolve?
Deficiência de vitamina D é comum em países de pouca luz e é motivo real pra pedir exame ao seu médico, mas suplementação não é tratamento pra sofrimento psíquico e não substitui avaliação. Vale investigar as duas coisas em vez de escolher uma explicação.
Os próximos invernos são melhores?
A maioria descreve que sim, principalmente porque você passa a saber que termina e a se organizar pra ele. O que muda mais não é o clima, é ter rotina, vínculo e um plano pros meses escuros em vez de ser pega de surpresa.

Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999 · Abordagem Centrada na Pessoa

Este conteúdo é psicoeducativo e não substitui atendimento psicológico.